Incondicionalmente

Fotografia genial do genial Elliott Erwitt

O Théo, meu cachorro, não sabe brincar de bola. Ele não entende o fundamento básico da brincadeira entre o cão e o homem que consiste em devolver a bola para o homem para que ele possa jogá-la para ele ir buscar. No mundo dele, a brincadeira funciona assim: a maior interessada em pegar a bola sou eu, e se eu quiser pegá-la, tenho que enfiar a mão dentro daquela bocarra cheia de dentes enormes e arrancar a bola toda babada de lá, na marra. E enquanto eu não fizer isso, ele não me deixa em paz.

Não é a coisa mais agradável do mundo, mas também não é a pior, é por isso que volta e meia a minha mão está dentro da boca do Théo, um labrador grande, gordo e lindo de quase 10 anos de idade que ainda se comporta como se tivesse 2 e que nunca-jamais-sob-hipótese-alguma tem a intenção de morder ninguém, mas que vez ou outra acaba me machucando na tentativa de me acordar com uma patada de “leve” na cara, pulando no meu colo para demonstrar o quanto está feliz com a minha chegada ou abocanhando a minha mão quando ela está segurando a sua bola. Ele não tem a menor noção do próprio tamanho, peso e força. Age como se tivesse o porte atlético de um pequinês ou de um porquinho da Índia.

Foi brincando assim que ontem ele arrancou a pele do meu dedo e eu dei um grito de susto e de dor – mais de susto do que de dor – e ele largou a bola na mesma hora e veio lamber a minha ferida. Até nisso os cães são mais nobres do que nós, eles não esperam a ferida se cicatrizar para tentarem se retratar conosco. Orgulho é só mais uma característica humana entre tantas que os cães desconhecem.

Ele me feriu e lambeu minha ferida em seguida. É quase como morder e assoprar, coisa que as pessoas fazem o tempo todo, inclusive com quem amam. A diferença é que alguns humanos só mordem. Alguns só assopram. E outros machucam sem usar os dentes.

Faz 10 anos que tento, inutilmente, ensinar ao Théo a maneira correta de brincar de bola. Faz 10 anos que explico para ele que a brincadeira não funciona desse jeito…

Às vezes penso que Théo é burro. E faz 10 anos que ele pensa exatamente a mesma coisa a meu respeito, mas não desiste de mim. Incondicionalmente.

Roberta Simoni