Os dias andam tristonhos

Dias tristonhos

Os dias estão tristes, os dias estão tristes. Os dias estão se recusando a sorrir.

Minha mãe liga para avisar que meu avô foi entubado, já não respira sem a ajuda dos aparelhos. Olho para a janela e penso que hoje deveria ser um dia de chuva. Hoje, especialmente, eu gostaria de ver minha janela chorando, solidária. Mas ela permanece seca, intrépida.

O telefone toca de novo, dessa vez é minha tia. Minha tia preferida, vale ressaltar. Tia Eza anda tendo fortes dores na coluna. Cuida do meu outro avô que ainda não precisa dos aparelhos para respirar. Mas precisa dela. E ela respira ele todo o tempo e ainda me diz – sem a menor desconfiança do tamanho do disparate – que é pra eu ir pra lá pra ela cuidar de mim também. Agradeço, mas não vou, claro. Me comovo profundamente com pessoas como a minha tia.

Já é madrugada. Eu não sei o que é dormir direito faz algumas semanas. Não haveria de dormir agora, depois de passar dois dias no hospital por conta de uma reação alérgica violenta no meu rosto e, principalmente, depois de sentir de forma tão clara o prelúdio da partida do meu avô preferido.

O meu amor se deita ao meu lado e me faz um carinho no rosto. Dormimos abraçados, enlaçados. Porque a dor, eu descobri agora há pouco, é uma forma poderosa de unir duas pessoas. Antes de pegar no sono, ele diz que dói me ver sentir dor. Depois me pergunta quando as coisas vão, finalmente, começar a dar certo. Eu também quero saber, meu bem, eu também quero saber…

Eu gostaria de entender que mal é esse que afeta os meus prediletos.

Os dias estão tristonhos. Os dias se recusam a sorrir e o que é ainda pior: se recusam a chorar. Faz tempo que não chove no Rio de Janeiro e o noticiário avisa que hoje é o dia mais quente do inverno.

Os aparelhos dele ainda estão ligados, mas minha mãe confessa, como quem fala cochichando para não ouvir o som da própria voz, que a casa dos seus pais já começa a ter um cheiro diferente, uma atmosfera estranha. Ela sabe o que vem a seguir, eu sei, todos sabemos, mas nem por isso dói menos.

Recebo mensagens de condolência de uma prima querida da Itália pelo estado do meu avô. Meus olhos ficam marejados de emoção enquanto leio, menos pelo teor das mensagens e mais pelas palavras escritas em italiano. Lembro do meu avô me ajudando a falar sua língua e das histórias que ele me contava de lá. Depois sorrio com o gosto doce da lembrança da nossa última conversa por telefone:

– Ô Nono, como você tá?

– Tô bem, tenho 3 namoradas. Sua avó e as duas enfermeiras.

– Mas, vô, é muita mulher pra você dar conta sozinho!

– E você?

– O que tem eu?

– Por que não se junta a elas?

– Mas eu sou sua neta!

– Não tem problema. Se você quiser ser a minha namorada, eu deixo você ser a principal delas.

E eu, a namorada principal do meu avô, evito escrever quando os dias estão tristes porque sou, naturalmente, influenciada por eles. Não quero que você aí, do outro lado, termine de ler esse texto com vontade de cortar os pulsos. Mas, convenhamos… o que seria do escritor e do leitor sem uma dose de realidade?

Já é tarde quando chega a chuva fina junto com a notícia da morte de uma amiga muito, muito querida. É o céu chorando, penso. E paro de escrever. Me permito, enfim, largar meu corpo à beira da cama, abaixar a cabeça e chorar de soluçar.

O discurso do pastor ao lado do corpo da minha amiga não me comove, pessoas com bíblias embaixo do braço oferecendo consolo em frascos de orações escandalosas não me consolam. Me afasto dos outros e passeio sozinha pelo maior cemitério que já vi na vida. Diante de centenas de túmulos de desconhecidos não sinto nenhum medo, nenhum estranhamento, não sinto nada. Estou vazia.

Minha amiga morreu no dia do próprio aniversário. É a primeira vez que eu vejo alguém morrer no mesmo dia que nasceu. Ela sofreu e adoeceu por amor e o amor por lá nem apareceu para um último adeus. Descubro mais uma coisa nesses dias doloridos: não tenho medo de gente morta, tenho medo de gente viva.

Os dias estão tristes. Os dias estão tristes. E eu tenho visitado bem mais hospitais e cemitérios do que gostaria.

Roberta Simoni

A tristeza não é a vilã

Ela chegou sem avisar e me encontrou desprevenida e desarmada. Há muito ela vem tentando ser notada por mim, e aproveita qualquer espaço, por menor que seja, para se mostrar, porque não suporta mais ser ignorada. Cansou de ficar escondida por trás do meu sorriso sem graça, do meu olhar sem foco para o nada, da ausência da minha alegria e do meu entusiasmo de ser e existir. Deixo, então, que a tristeza ocupe o espaço que lhe tem sido negado, e que pertence à ela por direito, e espero que me mostre para quê veio.

Acho que quando a dor é aceita, dói pela metade, e se apressa para ir embora, pois uma vez aceita, incomoda cada vez menos, até perder o sentido de existir. Só que enquanto ainda dói, me faz sentir sono, e o sono vem depois do choro cansado e agudo que ela me provoca, sem se importar com mais nada, pedindo para a minha mente e o meu corpo se desligarem um pouco.

Chorar me faz até bem, alivia as angústias e me esvazia de mim mesma. Ando cansada de mim, cansada de existir, de tentar entender a mim, os outros e o mundo. Cansada de buscar respostas para o que é humanamente incompreensível. Então, deixe! Deixe que eu me esvazie do meu próprio cansaço mental e espiritual, deixe que eu me permita estar do jeito que eu preciso estar agora, mesmo sem um motivo “apalpável”. Minha alma não precisa de motivos para se recolher dentro de mim, mas ela só o faz quando eu permito, quando não me fecho na minha mediocridade disfarçada e no meu egoísmo, tão naturais aos humanos, que, por vezes me fazem esquecer que sou muito mais do que carne e osso.

Não acusem mais a tristeza de ser a vilã, parem de tentar camuflá-la em falsas alegrias e sorrisos amarelos. Não estou dizendo que temos que ser tristes, longe disso, o que quero dizer é que todos nós temos um pouco que seja de tristeza, que quando oprimida, fica cada vez mais incômoda, até ficar profunda e inflamada. Quando ela for inevitável, deixe que entre, trate-a com cordialidade, é apenas uma visita breve. Ela não vem para ficar, não quer tomar o espaço da alegria, é singela e humilde, e só vem para preparar o ambiente para uma futura alegria, que se antes não fosse uma dor, passaria despercebida.

“A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”. Não sei quem foi o sábio que disse essas palavras, mas ela sintetiza tudo o que quero dizer. Sentir dor é diferente de sofrer, o sofrimento fere e deixa marcas profundas, e pode ser uma escolha. A dor é inevitável, mas é sóbria e tem fundamento, chega e vai embora como uma brisa suave, não deixa saudades, mas te deixa melhor do que quando te encontrou.

Estar triste não é ser triste e a minha tristeza está  longe de ser sofrida. Eu não sou habituada a dor, mas, finalmente entendi que a dor me ajuda a crescer como gente, e a cada lágrima que ela provoca, me purifica e limpa os meus olhos para enxergarem tudo aquilo que preciso e que tenho – inconscientemente – me recusado a ver.

“A dor não é motivo de preocupação, faz parte da vida animal.” (Clarice Lispector)

Roberta Simoni