Ninguém sabe. De coisa alguma.

A gente é um emaranhado de coisas. As pessoas que cruzam ou convivem com a gente não sabem da missa a metade. Ainda bem, pois se soubessem da missa inteira, contestariam, fugiriam ou dormiriam no meio. Melhor assim.

Ninguém precisa saber que você chorou escondido no banheiro do trabalho porque no meio da tarde foi assaltado por uma lembrança ou uma saudade aguda.

Exceto se eu quiser contar, ninguém precisa saber que eu gosto de tomar banho no escuro ouvindo música todas as noites quando chego em casa. E que, às vezes, eu choro. Por nada, e por tudo.

Você não precisa admitir que tem ficado até tarde trabalhando porque não sente mais prazer de voltar pra casa. A gente nota, mas não fala nada.

Deixe que suponham. Deixe que deduzam, que digam. Eles não podem fazer isso o tempo todo. Em algum momento serão obrigados a se voltarem pra suas próprias vidas e enfrentarem seus próprios dilemas.

Ninguém sabe quem você leva pra cama e se alguém leva pra cama a preocupação de com quem você tem ido pra cama, certamente é porque gostaria de ir pra cama com você ou porque não anda lá muito contente com quem tem levado pra cama.

A preocupação com as atividades sexuais alheias é algo que eu talvez precise de mais algumas encarnações pra compreender. Não sou boa com questões lógicas, mas essa me parece bem simples: se uma pessoa se ocupa de investigar com quem você escolhe passar suas noites se deitando (ou sentando, que seja), ela está desperdiçando o tempo que deveria estar se ocupando de fazer o mesmo.

Triste, não é? Pois é, mas eu descobri que acontece o tempo todo e por toda parte (habitada por seres humanos).

Ninguém sabe que você tem pensado o tempo todo em se separar, se mudar pra outro país e ir trabalhar na praia pra ajudar o povo de humanas a fazer miçanga.  E que, com a mesma frequência, você pensa que isso é um disparate. E que seu cérebro passa dia após dia vivendo esse dilema enquanto consegue te fazer continuar agindo normalmente. E você forja uma normalidade que pode chegar a suportar por anos.

Ninguém sabe que você tem medo de tomar tarjas pretas porque, no fundo, se acostumou a viver dentro do seu caos e não saberia o que fazer sem suas angústias já domesticadas. Mas eles insistiram e você procurou um médico, que te disse que você tem uma dessas síndromes contemporâneas. Mas você é démodé e não quer se medicar porque acha que a vida vai ficar ainda mais insuportável se suas dores ficarem dormentes.

Tem gente que não sabe que você toma tarjas pretas justamente pra conseguir suportar gente assim.

Ninguém sabe que a gente tem se frequentado e que não tem frequentado quem a gente vê com frequência. Somos improváveis demais pra nos cogitarem frequentando o universo um do outro.

Eles não sabem quantas coisas na sua vida acabaram antes mesmo de terem começado. Nem quantos projetos você começou e não conseguiu acabar. Nem quantas vezes você chorou porque acabou o que você queria que tivesse continuado e continua com o que queria que já tivesse acabado.

Você não precisa contar pra ninguém que está com raiva, infeliz ou amargurado. Se disser isso em voz alta, capaz de contar pra última pessoa que deveria saber: você.

Uma vez constatado, você vai precisar fazer algo a respeito disso. E você tá cansado demais pra conversar, pra gastar energia (se) debatendo. Tá muito acomodado pra sair do lugar, pra cogitar viver numa outra realidade onde suas tristezas e insatisfações não cabem, pois elas vêm acompanhadas de benefícios espaçosos. Tá na merda, mas tá quentinho.

Ninguém sabe de quem você lembra na hora de dormir e quem é a primeira pessoa que você pensa na hora que acorda. Nem você sabe quem pensa em você.

Ninguém sabe do que você tem medo, o que te paralisa e como foi assustadora a última vez que você teve uma crise de ansiedade ou de pânico. A quem você recorre quando os outros não sabem de nada, mas agem como se soubessem de tudo?

Ninguém sabe que, às vezes, você tá com alguém quando queria estar com outro alguém. Nem imagina o que te dá prazer quando não tem ninguém olhando. E o que te dá tesão quando tem alguém olhando.

Ninguém sabe que você não é o que parece. E que parece o que não é. Mas você não tem culpa se o ser humano é dado a deduções simplórias e rasas. Mergulhar no outro dá trabalho. Sem falar no medo de se afogar. Você nunca sabe o que vai encontrar lá no fundo. Todos nós somos buracos negros.

Ninguém sabe que o que você é hoje é fruto de erros fantásticos, de equívocos abençoados, de pecados inconfessáveis, de litros de suor e lágrimas que ninguém viu escorrer.

Poucas pessoas sabem o que te faz se escangalhar de rir, as idiotices que te arrancam gargalhadas escandalosas. E menos pessoas ainda sabem as pequenas coisas que te provocam as maiores alegrias. E, ao longo da sua vida, serão poucas as que vão saber.

Ninguém sabe o esforço que você tá fazendo pra sorrir e conversar. Quem te vê trabalhando, malhando, estudando, não imagina o drama que tem sido pra você se levantar da cama todas as manhãs. Eles não sabem que você tem preguiça de existir quase todos os dias, algumas vezes por dia, e que respirar já foi mais fácil. Um dia.

Eu não sei o que tá acontecendo na vida da moça que me atendeu com má vontade. Ou na vida do moço que foi grosseiro comigo sem motivo aparente. Mesmo assim, não raro eu desejo do fundo do meu coração que eles se fodam, até me lembrar que eles são também um emaranhado de coisas que não estão aparentes, dificultando que a minha empatia imediata se estabeleça.

Às vezes, a gente não sabe nem as batalhas pessoais que as pessoas mais próximas da gente estão travando.

Ninguém sabe as aflições que passei escrevendo cada parágrafo daquilo que é só um pedacinho das aflições da gente. E eu não vou contar.

Roberta Simoni

Não tô vendo elefante nenhum

Era uma vez uma menina que sonhava em conhecer o zoológico. Um dia, seus pais realizaram seu desejo e ela ficou muito feliz. Fim.

Se tivesse sido assim, essa história – que aconteceu há 30 anos – não teria graça nenhuma. Nem teria história pra contar. Seria apenas mais um episódio de mais uma família que foi ao zoológico, viu uns bichinhos lá e pronto, acabou. Mas o que aconteceu, na verdade, foi uma odisseia que merece ser contada.

Pra começar, o zoológico mais próximo da cidade onde eu nasci fica a mais de 160 km de distância. Minha irmã, Elisa, tinha seis anos e vivia pedindo pros nossos pais levarem-na lá. Ela sonhava em ver os bichos de perto, especialmente o elefante.  Eles resolveram realizar o sonho da primogênita, planejaram a viagem com antecedência, pensaram em todos os detalhes (ou quase todos). Eu, no alto dos meus três anos de idade, não dava conta de muita coisa. Onde quer que me levassem eu só queria correr e subir onde não podia pra fazer o que não devia, feito uma criança hiperativa, só que naquele tempo chamavam crianças assim de levadas ou arteiras. Enfim. Prossigamos, pois não estamos aqui pra falar de mim.

Era o ano de 1987, meu pai tinha uma brasília vermelha mágica. Isso mesmo, mágica, porque só magia explica o fato misterioso de oito seres humanos terem conseguido viajar dentro dela, saindo de Cabo Frio com destino à Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro (mas se vocês perguntarem pros meus pais, eles vão garantir que o destino foi o inferno mesmo).

Era verão, fazia um calor senegalês, uma brasília (sem ar-condicionado, naturalmente) transportava quatro adultos e quatro crianças – de três a sete anos. Eu, minha irmã e dois meninos, filhos dos amigos dos meus pais, um casal que era muito próximo deles naquela época, tão próximo a ponto de achar super normal se enfiar dentro de uma brasília com eles, todas as crianças juntas e cair na estrada pra levar seus filhos pra ver um monte de animais enjaulados e entediados, coitados (dos animais e desses pais).

Abre parêntese: quando comecei a escrever esse texto, fui confirmar com minha mãe se isso realmente aconteceu ou se foi fruto da minha imaginação. Mas não foi, realmente aconteceu. Minha irmã e eu fomos criadas por adultos que nos colocavam pra viajar dentro de brasílias (de duas portas!!!) superlotadas. Isso explica muita coisa.

Outro parêntese: coloquei a brasília no plural porque acho que soa mais traumático numa reconstituição dramática. Fecha parêntese.

Voltando à odisseia: lá fomos nós para a cidade grande conhecer o grande elefante. No caminho, minha irmã, sonolenta, já se queixava da demora, do calor, da vontade de fazer xixi. Eu me ocupava brigando por espaço com o menino que tinha a minha idade e que também queria sentar bem no meio, onde eu fazia questão de anunciar que era o MEU lugar, pois o carro era do MEU pai. Tá?

Uma mulher já nasce com poder de argumentação maior que o dos homens. Assunto encerrado, o meio era meu pra eu me apoiar nos dois bancos da frente, olhar a estrada e perguntar a cada dois minutos se faltava muito pra chegar. Quanto ao cinto de segurança, parece que isso não era tendência nos anos oitenta. Cadeira pra transportar criança então, nem pensar. Acho que nem tinham inventado ainda. Se tinham, não chegou em Cabo Frio.

Chegamos no zoológico e lembro de ter escutado duas frases muitas vezes, com algumas variações: “Elisa, olha ali o macaquinho (o coelhinho, o jacaré, o passarinho, etc)” e “desce daí Roberta, não encosta aí Roberta, volta aqui, Roberta…

Na minha família, a regra é clara: só me chamam de Roberta quando tô fazendo merda. Na “maior parte” do tempo, sou Beta. E não me lembro de ter sido chamada de Beta nenhuma vez naquele dia.

Meus pais se esforçavam pra Elisa se interessar pelos outros bichos enquanto a ala do elefante ainda estava distante. Mas ela estava determinada a ignorar todos os animais. E os nossos pais. Eu, no caso, estava ocupada fazendo o que sempre foi minha especialidade: ocupar os dois.

Conforme o passeio foi avançando, Elisa resolveu trocar o interesse obsessivo pelo elefante pelo desejo incontrolável de comer e descansar. E minha irmã possui dois traços muito marcantes na sua personalidade: a determinação e o mau humor quando está: 1- com fome, 2- com sono e 3-cansada de andar.

“Mas a gente já tá quase chegando no elefante, Elisa. Só mais um pouquinho.” (ah, é… essa frase também foi muito usada naquele dia!)

Eis que finalmente, alcançamos o tão esperado-desejado-sonhado-salve-salve elefante, e…

“Não tô vendo elefante nenhum!”

Eles insistiram: “Filha, olha o elefante, que lindo!”

“Não-tô-vendo-elefante-nenhum!”, ela sustentou, até o fim, se recusando a olhar pro animal.

Não teve jeito, àquela altura, minha irmã não estava vendo mais nada. Elefante, ou girafa… nada era maior do que sua fome. Ela seria capaz de comer um elefante, mas de vê-lo, jamais.

Imagino a frustração do pai e da mãe, a vontade jamais verbalizada de pegar aquela criança e jogar na jaula dos leões.

Elefante devidamente desprezado, fomos lanchar. Minha irmã recuperou o vigor. E o pedido insistente da vez (das quatro crianças) era: “quero ir no museu, me leva no museu? vamos no museu, por favor!” (eu gostaria de saber como as crianças são capazes de fazer tantos pedidos, de sentirem tantas vontades urgentes que, se não forem realizadas imediatamente, parece que não vão sobreviver. Ou, o que é mais provável, não deixarão que seus pais sobrevivam).

Corta para: dentro do museu, eu no colo da minha mãe e Elisa no colo do meu pai. As duas dormindo o sono dos justos. O outro casal na mesma situação. Quatro adultos carregando suas respectivas crias completamente apagadas, que entraram e saíram do museu sem ver nada, tal qual o elefante.

Na hora de voltar pra casa, na saída do zoológico, um cachorro leproso que passava por ali, fez as duas meninas se derreterem. “Olha pai, olha mãe, que cachorrinho lindo!”. Os pais das meninas se olharam e caíram na gargalhada. Era isso ou chorar. Não restava muito mais o que fazer.

Moral da história: não faça as vontades dos seus filhos… brincadeira! Na verdade, não tem nenhuma mensagem moral aqui, mas tem uma história muito boa, que cresci ouvindo meus pais contando, às gargalhadas. Mais do que isso: tem uma piada interna maravilhosa, que merece ser compartilhada com o mundo. E usada, por que não? “Tejem” à vontade. 

Na minha família, toda vez que estamos em alguma situação desagradável, num lugar com pessoas chatas, ouvimos alguma coisa que não tem a mínima graça, estamos cansados ou de saco cheio, falamos: “não tô vendo elefante nenhum”.

Algumas vezes usamos como um código secreto: “Tá vendo algum elefante?”, “Não”, “Nem eu”, “Vamos embora?”, “Agora!”

Só mais tarde, minha irmã descobriria que, na vida adulta, ver elefantes seria bem mais penoso do que foi naquele dia. Eu também não demorei a perceber isso. E vejo cada vez menos. Parece que estão em extinção, os pobrezinhos. Uma lástima!

Nessa foto se vê: 1- duas crianças derrotadas, que não estão vendo elefante nenhum. 2- uma menina sem modos que só queria andar sem camisa. 3- Freddie Mercury sentado bem na frente dessa menina (e ela não pediu um autógrafo!!! Céus!)

Roberta Simoni

Notas de insights aleatórios

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– Tá comprovado: não sou boa em retribuir recadinhos e felicitações de fim de ano (ou de qualquer data comemorativa), mas no restante do ano você pode ser surpreendido com uma demonstração de afeto da minha parte a qualquer momento. E isso deve valer alguma coisa.

– Procuro comparecer a todos os meus momentos. Os bons e os maus, vivendo de corpo e mente presentes. É uma pena não poder dizer o mesmo dos eventos sociais que vou. Quando vou.

– A bula do remédio diz que minha libido pode diminuir e instantaneamente eu já acho que tô broxa. Todo mundo sabe que não se deve ler bulas. Mas o que se deve fazer quando se é o tipo de pessoa que sabe que não deve fazer determinada coisa, mas faz mesmo assim? E se a resposta estiver numa bula? Nunca se sabe.

– Meu novo corte de cabelo me faz lembrar a Velma, do Scooby-doo. E isso me faz sentir muito pouco atraente. E tudo bem.

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“Gente, a Velma disse gente!”

– Eu ainda não tenho nenhuma tatuagem no meu corpo por um único motivo: adiamento de escolhas, sobretudo as definitivas.

– Eu acho que quando a gente recebe uma má notícia, é demitido, leva um pé na bunda, perde dinheiro ou a dignidade, devia ganhar discurso do Bial como prêmio de consolação. Um “vem chorar aqui fora” parece menos desconfortável do que um “se fodeu”…

– Não adiantou nada você deixar uma camisa aqui se ela tá limpa. Se eu quisesse sentir cheiro de sabão ou amaciante, ia na lavanderia ou na minha área de serviço.

– Comi seu prestígio. Desculpa, mas você me arrancou suspiros e comeu meus sonhos primeiro e não me viu me queixar disso.

– Se eu perdesse o controle da minha vida com  a mesma frequência com que perco o controle remoto da televisão, tava ótimo. E olha que perco bastante o controle remoto.

– Você tá lá, vivendo sua vidinha e pá! Num piscar de olhos tudo muda. O tempo todo. Tudo-muda-o-tempo-todo. A gente precisa começar a assimilar isso, gente. Sério.

– Escolho melhor meus interlocutores para não ter que ficar escolhendo minhas palavras.

– Elegi algumas pessoas que falam o mesmo idioma que eu para gastar meu vocabulário porque descobri que desperdiçar verbo é tão grave quanto jogar comida fora.

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– Numa realidade paralela, quando tá calor, eu posso entrar na minha geladeira, que é, na verdade, uma passagem secreta pra uma praia paradisíaca, onde eu fico deitada numa rede sob a sombra de uma frondosa árvore, lendo o dia todo e tomando o sorvete que o moço bonitão do picolé vem trazer pra mim.

– Invejosos dirão que estou plagiando Nárnia, mas estou apenas fazendo uma pequena adaptação porque não sou obrigada a gostar de floresta com neve.

– Ainda não descobri o que fazer com as azeitonas que eu costumava transferir do meu prato pro seu.

– E se Deus fosse travesti? Cara, se Deus fosse travesti ia ser demais. Só queria ver a cara de vocês!

– Liberdade sexual não existe. Não para as mulheres. Ponto final.

– De um tempo pra cá, superlativos e advérbios de intensidade começaram a me incomodar muito. Por exemplo, esse “muito” aí na frase. Qual a necessidade? Nenhuma. Mesmo porque, se eu for parar pra pensar, eles nem me incomodam taaaanto assim.

– Viver é um ato de coragem.

–  Quantas pessoas cabem dentro de um ser humano só? Eu ainda não consegui somar meus habitantes. Você já?

– Frequentemente me vejo em situações tão surreais que me sinto como se tivesse acabado de sair do cinema. Levo um tempo pra entender onde eu tô, pra onde vou. O que tá acontecendo?

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– Não importa o tamanho dos fones de ouvido que eu uso durante minhas viagens diárias nos transportes públicos, as pessoas sempre vão ignorá-los e me escolher pra pedir alguma informação. Isso deve significar alguma coisa… mas eu tô com preguiça de pensar a respeito agora.

– O mundo tá mais moderno e eu, démodé. Tenho um celular todo metido à besta, mas continuo a mesma besta quadrada.  Ainda escrevo bilhetes, cartas, e acho meus cadernos mais eficientes do que smartphones. Pelo menos eles não ficam sem bateria.

– Comecei a levar a sério o uso do filtro solar, finalmente. Mas isso não significa que tomei juízo. Eu tomei, no máximo, dois goles de café hoje de manhã pra despertar e um baita susto quando vi meu reflexo no espelho.

– Tenho me voltado, com cada vez mais atenção, para as minhas emoções. E para o papel que elas desempenham na minha rotina.  E descobri que não há nada nessa vida que me abale mais do que o amor.

– Onde o amor prevalecer, lá vou permanecer. E onde tiver ar-condicionado também.

– Não olha agora, mas 2017 chegou e janeiro já tá na metade!!!

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Roberta Simoni

Dane-se o transtorno, precisamos falar sobre separação

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Já faz um ano que falei para o meu ex-marido que eu não queria mais estar casada com ele. A dor dessa decisão, que já vinha crescendo antes desse dia, se esticou por mais alguns, quando, de fato, consegui ter forças para sair de casa. Foi uma dor larga, longa e profunda e, apesar disso, é uma dor que eu recomendo para casos de infelicidades largas, longas e profundas, porque quando ela passa…  quando passa é substituída por uma paz tão boa e generosa, que faz a gente pisar mais leve no mundo, que antes pesava tanto nas nossas costas.

Hoje, quando acordei sozinha, lembrei que faz mais de um ano que acordo sozinha e não doeu. Já não dói há muito tempo. Lembrei de todas as manhãs que eu acordava sozinha porque ele estava dormindo na sala pela milésima vez por causa de alguma birra sem sentido. Eu olhava pra ele, dormindo todo espremido naquele sofá que eu detestava – e tinha deixado que ele escolhesse pra não gerar mais uma briga inútil – e pensava no desperdício. De tempo, de energia, de vida. E de lençóis de casal, que só eu usava pra tentar cobrir minhas angústias, que cresceram até ficarem descobertas, com os pés de fora.

O sofá ficou. Eu fui embora.

É claro que nós tivemos momentos felizes ao longo dos anos que passamos juntos. E nos agarrávamos a eles porque foram reais e tínhamos a esperança de que voltassem a ser. Alguns ficaram registrados em fotos, vídeos, textos. E era através desses registros que a maioria das pessoas nos enxergava, como se fôssemos tão permanentes quanto imagens congeladas numa fotografia. “Mas vocês pareciam tão felizes…” É claro que parecíamos, pois estávamos. Naquele momento. Mas momentos se dissolvem, e evaporam. Só quem tem o privilégio de revivê-los sempre que quiser é a memória.

Ninguém tira fotos durante uma discussão ou enquanto chora no banheiro sem saber o que fazer com os planos incríveis que se tornaram falíveis e com as mágoas que vão se entulhando por todos os cantos da casa enquanto o amor, o tesão e a admiração estão ficando empoeirados no quartinho dos fundos.

Uma das coisas mais dolorosas que se enfrenta ao romper uma relação amorosa é ter que romper com os sonhos sonhados juntos, com a rotina que foi construída e principalmente com a ideia do que poderia ter sido, mas não foi.

Eu descobri que muito mais difícil do que me desapegar da nossa vida, era conseguir me desapegar daquilo que ela poderia ter sido.

Eu não quero dizer com isso que descobrindo ficou mais fácil, tampouco estou dizendo que separação é um processo tranquilo. Nãããão! É um troço medonho. Acaba com as nossas energias. E com nossas economias. Faz a vida da gente virar do avesso. Mas é aí que tá: o avesso pode se revelar surpreendentemente interessante.

Ninguém entra numa relação porque não tem nada melhor pra fazer (ou não deveria entrar). O investimento é alto, em todos os sentidos, e o prejuízo é bem maior do que o de alguém que aposta uma grana alta no cavalo errado. E é por isso que muitos relacionamentos duram bem mais do que deveriam e vão se estendendo até que se encontre um jeito de amenizar os traumas e os desgastes que virão com o rompimento.

Talvez você não esteja preparado para ler isso, então, me perdoe de antemão se eu estiver matando o seu Papai Noel. A golpes de facada. Na sua frente. Mas sabe aqueles casais de velhinhos que você vê juntos e acha muito fofinhos? Então… ELES NÃO ESTÃO FELIZES (afinal, quem é que tá? Já é tempo de parar de superestimar a felicidade, inclusive a conjugal).

Eles podem ter envelhecido juntos por escolha, porque se amam? Podem, claro. Mas pode ser também que eles simplesmente não tenham encontrado um jeito de separar suas vidas e pela força das circunstâncias tenham continuado juntos. Podem ter se acomodado apesar do amor ter acabado. Um dos dois pode ter continuado porque teve medo de partir, ou porque sentiu culpa, compaixão. Ou porque era conveniente. Talvez eles tenham esperado os filhos crescerem, mas aí as crianças viraram adultos, os anos se passaram e eles perderam o timing. As possibilidades são infinitas. Não se iluda achando que uniões duradouras são sinônimos de uniões bem sucedidas.

Separações também não significam que a relação tenha sido um fracasso. Deu certo até parar de dar.

Esse ano teve Jolie deixando Brad, Fátima ficando sem Bonner. Teve Du Moscovis voltando pra pista. Teve Fernanda Gentil(mente) explicando pra gente que se separou do marido porque eles não estavam felizes e mereciam buscar a felicidade em outros lugares. E teve muita, muita gente dizendo que desistiu de acreditar no amor depois de ver que até “casais perfeitos” como esses se separam.

Primeiro engano: não existe casal perfeito, nem casamento. Segundo: separações não deveriam nos levar a perder, mas a recuperar a fé no amor. Casais famosos e anônimos se separam todos os dias justamente porque se atrevem a acreditar que podem voltar a amar e serem amados.

Pessoas permanecem juntas porque apostam no amor tanto quanto pessoas se separam porque não desistem dele. No fundo, tá todo mundo tentando ser feliz, de um jeito ou de outro.

As coisas acabam. E recomeçam. E tá tudo certo. O que não tá certo é se prender àquilo que já se soltou.

E o mundo continua girando.

Roberta Simoni

Preconceito está em um relacionamento sério com Ignorância

Ironia

“Ele é homossexual mas é um cara inteligente”. Li essa frase no Facebook de alguém que não se julga de maneira alguma preconceituoso.

Não foi a primeira vez que li ou ouvi isso por aí. E não consigo enxergar esse comentário por outra perspectiva senão a do preconceito. Pra mim é como dizer, por exemplo, que alguém “é pobre, mas é limpinho”, como se o fato de ser pobre anulasse a possibilidade dessa mesma pessoa possuir a qualidade de limpa, porque é contraditória à sua característica destacada, no caso, a pobreza.

Ser pobre ou homossexual não é defeito, tampouco escolha. Imagine alguém dizendo “ah, meu sonho é ser pobre” ou “a partir de agora quero ser gay porque acho cool”. Além disso, apontar essas características (ou condições) seguidas de qualidades torna tudo ainda mais sofrível. Na verdade, o que está sendo dito é: “ele é gay, mas para compensar essa enorme falha, ao menos é inteligente.”

Quando alguém diz que fulano é gay, mas é inteligente parece que a qualidade não está presente no adjetivo. Ele é gay, portanto está implícito que não é inteligente. Como se a inteligência fosse uma característica exclusiva de heterossexuais e aquele cara ali – que se relaciona com pessoas do mesmo sexo e apesar disso é não é burro – é apenas uma exceção à regra.

O mesmo exemplo se aplica para qualquer outra qualidade que vem depois da conjunção adversativa MAS, que indica clara oposição entre ideias.

“Ele é gay, mas tem um coração enorme”, “ela é lésbica, mas é gente boa”. Os exemplos são inesgotáveis, tais como os absurdos que as pessoas verbalizam, muitas vezes sem se darem conta do preconceito embutido nessas afirmações.

É como se o fato de homossexuais possuírem qualidades fosse um grande consolo para esse tremendo deslize, não de caráter, mas de orientação sexual.

O mais lamentável é alguém achar que está elogiando ou enaltecendo a qualidade do outro desse jeito sem perceber que o preconceito está presente ali, inerente ao adjetivo.

Ninguém se refere aos heterossexuais dessa maneira, mesmo porque se um homem faz sexo com uma mulher e vice-versa, são consideradas pessoas normais. É senso comum. Mas se homens transam com homens e mulheres transam com mulheres… bom, aí tem alguma coisa muito errada, a começar pela anatomia humana, que não foi projetada para esses fins, isso sem entrar no mérito religioso, que julga relacionamentos homossexuais como algo que vai absolutamente contra as leis divinas.

Leis? Meu corpo, minhas regras. Seu corpo, suas regras.

Divinas? Todas as manifestações de amor são.

Refira-se a um homossexual como você se refere a um hetero. Apenas diga o que ele é, sem precisar destacar sua sexualidade como sua caraterística proeminente, sobretudo esqueça o que ele faz ou deixa de fazer entre quatro paredes, isso não te diz respeito, muito menos influencia na personalidade nem nas ações dele enquanto indivíduo. Ou então arrume um defeito de verdade para identificá-lo. Homossexualidade não é desvio de caráter, não é problema, não é doença e passa muito, muito longe de ser um defeito.

Mais do que superar seus preconceitos, você precisa se livrar da sua ignorância.

Roberta Simoni

Dialogando no Escuro

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Quando o Mário Di Poi, meu amigo paulistano, me convidou para visitar a exposição “Diálogo no Escuro” e me contou que a INPUT Arte Sonora era responsável pela produção e instalação de som, fiquei animada. O trabalho desses caras é sempre incrível e eu sou fã de carteirinha do Alexandre Guerra, amigo querido, que foi quem compôs a trilha sonora da exposição.

Mas até aí tudo que eu sabia era que havia um dedinho do Alê e do Mário na exposição e isso já era um prenúncio de boa coisa, mas foi só quando cheguei no Museu Histórico Nacional e entrei na exposição é que comecei a ter uma vaga noção da experiência que eu viveria nos próximos minutos. Mesmo assim ainda era uma noção muito, mas muito vaga.

De antemão já digo que, de todas as exposições interativas que visitei até hoje, essa foi a que mais gostei e a que certamente nunca vou esquecer do que “vi”, impossíveis de fotografar e de registrar com a memória visual porque – como o nome da exposição já sugere – ela acontece toda no escuro e, na ausência do sentido da visão, os outros sentidos (especialmente o da audição e do tato) ficam apurados e viram os nossos “olhos”.

O conceito da exposição é mostrar como é o mundo sem o sentido da visão. Os visitantes são conduzidos por guias deficientes visuais através de salas totalmente escuras, em que cheiro, som, vento, temperatura e textura apresentam as características de ambientes cotidianos como parques, ruas, comércios e praias.

Durante 45 minutos a sensação é a de estar na pele de um deficiente visual. E o que eu achei mais emocionante durante o percurso foi ter confiado plenamente cada passo meu na voz da minha guia, que também não podia ver, mas já condicionada à cegueira, é capaz de enxergar no escuro tudo o que eu não consigo ver.

Dentre as várias sensações, reflexões e desafios que a exposição proporciona, a de sair da nossa zona de conforto para mergulhar num universo completamente novo é uma das mais ricas. Nessa inversão de papeis, somos nós que damos passos cegos num terreno desconhecido e que, no entanto, é o mundo comum dos nossos guias.

Logo que se entra no primeiro ambiente, mesmo com a possibilidade de se apoiar nas paredes e usar a bengala, a sensação de cegueira absoluta é um tanto angustiante. Nossos olhos aflitos ficam buscando algum ponto de luz para usarem como referência e, como não encontram, nossa audição toma o controle da situação e é a voz de quem nos guia que nos conforta e nos faz sentir seguros, além, é claro, da consciência de estarmos dentro de um ambiente especialmente projetado para que pessoas sem o menor traquejo consigam transitar no escuro em segurança.

Quando a angústia passa e nos sentimos mais à vontade no breu é que começamos, de fato, a dialogar no escuro. E é aí que a magia acontece.

A exposição já passou por vários lugares do mundo, esteve em São Paulo e está no Rio desde o começo de março e eu não teria ouvido falar a respeito dela se não fosse pelo envolvimento dos meus amigos na montagem. Tenho falado da exposição para todo mundo na intenção de divulgá-la, uma vez que não vejo divulgações pela cidade e considero uma experiência única e imperdível, tanto que repeti a dose ontem, com a desculpa de levar minha amiga Gabs para conhecer.

As duas visitas foram incríveis. Se a primeira foi mais emocionante pelo fator surpresa, a segunda foi mais interessante, pois já estando um pouco familiarizada com o ambiente, consegui prestar mais atenção nos detalhes e testar melhor meus sentidos. Cibele e Verônica, as duas moças que me guiaram durante minhas visitas, foram adoráveis (e pacientes, respondendo minhas perguntas, que não foram poucas) . Foi graças a elas também que o passeio foi tão prazeroso.

Mais do que isso não vou dizer pra não dar spoiler e para que você, que tá no Rio (ou que estará nos próximos meses) termine de ler esse texto e vá correndo viver essa experiência. A exposição fica na cidade até outubro, mas há um limite de visitas por dia, por isso os ingressos (R$12 – inteira) são vendidos antecipadamente. Mais detalhes aqui.

Acho difícil alguém sair daquelas salas escuras do mesmo jeito que entrou. Minha empatia natural por deficientes visuais só fez crescer. Mais do que enxergá-los com outros olhos, eu também passei a ver a vida sob uma perspectiva diferente (e eu não tô falando só da ótica visual). Além de sensibilizar e conscientizar, a exposição aproxima universos e quebra barreiras.

Mexeu comigo de um jeito que eu ainda não consigo descrever. Alcançou uma parte de mim que na claridade não dá pra ir porque é impossível encontrar o caminho. Um lugar que só se chega tateando o escuro. Uma paz que eu só encontro quando me perco.

Uma vez um moço fazedor de poesia, domador de palavras e notas musicais, de olhar inquieto e e gestos doces, passou por aqui e disse que meus olhos são como o breu. Talvez seja isso.

Roberta Simoni

A cobra da minha avó

Cobra de Estimação

Dona Norma, minha avó paterna, nunca se encaixou no estereótipo da avó tradicional dos anos 80. Era uma senhora baixinha e gordinha, fora isso não tinha qualquer semelhança com a Dona Benta. Foi criada de maneira rígida e com rigidez criou os filhos. Não era lá muito maternal, tampouco sutil. Falava aos berros e vivia se queixando da vida. Os domingos de visita à sua casa entrariam para a lista dos mais entediantes nas minhas recordações.

Vovô Chiquinho – que ainda vive mas nem tanto, pois está acamado há muitos anos, em estado vegetativo – era quem conseguia tornar aqueles domingos menos torturantes, sobretudo quando o encontrávamos de péssimo humor. O mau humor era seu estado natural, mas havia dias em que nem ele se suportava e quando calhava disso acontecer num domingo era uma tremenda sorte nossa! O velho rabugento falava e gesticulava sem parar, sempre indignado com alguma coisa ou com alguém, do Presidente da República ao pernilongo, ele sempre tinha o que reclamar dizer.

Era ótimo assistir meu avô dando um espetáculo (ainda que fosse de ira) e meus pais gargalhando compulsivamente. Eu não decifrava muito bem o que eles diziam, mas entendia que estavam se divertindo e ver adultos se divertindo me deixava curiosa e animada. Não era todo dia que eu via um panda, assim como era raro ver um adulto feliz. Uma coisa exótica de tal maneira que eu parava o que estivesse fazendo para assistir.

Vovó Norma, entre uma queixa e outra, oferecia todo tipo de fruta que tinha em casa. E insistia. Insistia. E insistia de novo. Era o jeito dela de demonstrar carinho. Pena que eu só fui me dar conta disso quando já era tarde para aceitar um daqueles pedaços de melancia com afeto.

*Nota: até hoje quando eu fico muito insistente, papai só me olha e diz: “Não queeero, Norrrrrma”. Às vezes é só assim que eu entendo. Cada um tem a herança que merece, afinal.

Minha irmã e eu estávamos mal acostumadas com a nossa avó materna, com quem passávamos a maior parte do tempo. Ela preparava (e prepara até hoje) sobremesas incríveis e abastecia a dispensa com todo tipo de guloseima para receber a “netaiada” toda. Daí vinha a outra vó e oferecia fruta? “Não, não vó, brigada, a gente tá sem fome”. Quando ela se dava por vencida, falava entre os dentes: “ai, crianças chatas!”

Mas era quando ela insistia pra gente almoçar que o bicho pegava. Verdade seja dita, vovó não era boa cozinheira. Exceto meu pai, que jamais concordará comigo, pois tem um paladar nada exigente (além disso, estamos falando mal da mãe dele aqui), nós comíamos sem o menor prazer. Eu e meus primos, inclusive, tínhamos o péssimo habito de enterrar no quintal o que a gente não conseguia digerir. Era uma atitude pouco inteligente, mas achávamos que nunca seríamos descobertos…

Um dia vovó apareceu com uma novidade: foi regar as plantas e deu de cara com uma cobra enorme. E venenosa!

Costumávamos ser crianças destemidas, mas não a ponto de brincar num lugar onde havia uma cobra venenosa à solta, de modo que comecei a passar longe do quintal que – aos meus grandes olhos de menina pequena que enxergava imensidão em tudo – parecia uma floresta, repleta de plantas enormes, pé de tudo quanto era fruta, hortas e flores de várias cores. Era um jardim selvagem e caótico, mas tinha vida. Tudo ali respirava. Era o que fazia dele bonito. Pena que a presença de um bicho peçonhento fez minha pequena selva ganhar um tom sombrio.

By Christian Schloe

Eu, que já era curiosa antes mesmo de me entender como gente, todo domingo chegava lá ansiando por notícias da cobra. Vovó só faltava passar um relatório completo das aparições da bicha. “Hoje mesmo, um pouco antes de vocês chegarem, ela estava atrás daquele arbusto, mas a miserável fugiu quando seu avô foi atrás”. Minha irmã e eu ficávamos com os olhos arregalados, atentas a qualquer movimento rastejante. Por mais que ela garantisse que a cobra não entraria em casa, eu sempre me sentava sobre minhas pernas, temendo ser pega desprevenida e levar um bote.

Com o passar do tempo, a cobra foi ganhando um espaço no quintal e na vida da minha avó que nem ela poderia supor. “Hoje ela estava pendurada naquele abacateiro ali, né Chiquinho?” e meu avô só balançava a cabeça, concordante. Mamãe e papai não se manifestavam. Não alimentavam o medo que vovó tinha plantado na gente, mas também não podiam desmenti-la. Imagino o quão difícil tenha sido para o meu pai, que sofre de excessos, de sinceridade em especial, a ponto de ter nos poupado de lidar com a frustração da inexistência do Papai Noel, por exemplo. Ele nos oferecia a verdade pra variar, já que o mundo se encarrega de oferecer infinitas fomas de ilusão.

Mas a cobra era o espantalho contra netos da minha avó. O quintal era dela e isso lhe dava o direito de colocar um espantalho para cada neto se assim o quisesse. E quem se opusesse a isso teria dois trabalhos: o de confrontar a baixinha invocada e o de se conformar em perder o confronto.

Sei que eu não colocava meus pés miúdos naquele quintal nem por um decreto. Morria de medo. Antes disso uma cobra era só uma cobra, não uma ameaça. Eu gastava minha cota de medos como qualquer outra criança: com fantasmas, monstros e bruxas, embora meus pais tentassem me convencer de que eles não eram reais.  A cobra não. Ela existia. E eles não podiam negar.

E eu, que já tinha uma relação ambígua desde cedo com o medo, capaz de me paralisar e de me motivar, comecei a me desafiar a colocar um pé no quintal. Depois os dois. Depois a dar dez passos, tocar no pé de fruta do conde e voltar correndo. Um dia decidi desbravar o terreno à procura da cobra e quanto mais acelerado batia meu coração, mais excitada eu ficava. Tudo ia bem, eu ia vencendo os desafios criados por mim mesma paulatinamente, até vovó descobrir minha ousadia e no domingo seguinte me contar que a cobra deu cria.

Não sei por quantos anos vovó alimentou essa fantasia, também não sei por que ela sentia necessidade de inventar tantas histórias se uma só já bastava para nos manter afastados das suas plantas. Talvez ela tenha passado a acreditar na própria mentira depois de ter contado tantas vezes. A única certeza que tenho é que seu jardim se manteve conservado graças àquela mentira. Só quando estávamos mais crescidinhos e já não representávamos tanta ameaça ao seu quintal, ela contou que tinha encontrado a cobra morta. Cheguei a ficar de luto pela bicha e preocupada com as cobras órfãs.

Ao sentenciar a morte da peçonhenta, vovó matava sua mentira conveniente e a minha fantasia de encontrá-la. Ela só não matou o meu medo porque eu mesma já tinha tratado de dar fim nele algum tempo antes, mais ou menos na mesma época que perdi o interesse pelo seu quintal.

Passei boa parte da minha vida acreditando ingenuamente na existência daquela cobra por um simples motivo: eu não tinha razões para duvidar. Nunca passaria pela minha cabeça que alguém pudesse inventar uma mentira tão cabeluda quando podia simplesmente pedir, proibir ou me educar a não fazer determinada coisa. Era assim que meus pais costumavam agir comigo e isso era tudo o que eu conhecia sobre limites.

Anos mais tarde, quando meu primo contou (achando muito engraçado) que aquilo tudo não tinha passado de uma farsa, eu me senti uma tola. Vovó nunca soube que me magoou, mas se tivesse sido comunicada certamente teria me mandado deixar de ser chata, como fazia quando eu me negava a comer uma de suas suculentas frutas.

A sensação de ter sido enganada não foi a das mais agradáveis, mas não era a primeira vez que acontecia, nem seria a última. E passou longe de virar um trauma, pois não havia potencial para tanto. Dramaturgicamente falando seria até mais interessante se eu tivesse desenvolvido alguma fobia por serpentes ou rancor pela minha avó, mas fato é que nada disso aconteceu. Quando me tornei adulta, lembrava disso de um jeito cômico e com um certo saudosismo de uma fase livre de qualquer desconfiança. E agora, enquanto escrevo, percebo como o quintal e a cobra são simbólicos pra mim.

Quando eu fiz a disciplina de filosofia na faculdade e li sobre o Mito da Caverna de Platão fui automaticamente transportada ao quintal de Dona Norma. A grosso modo, o mito conta que prisioneiros passavam a vida inteira presos numa caverna, de frente para uma parede, onde sombras enormes eram projetadas através da luz da chama de uma fogueira. Eram apenas sombras de coisas que existiam e aconteciam do lado de fora, mas eles acreditavam que eram seres malignos e que se tentassem sair, seriam mortos por eles, dessa forma, o medo os mantinha presos. Quando um dos prisioneiros consegue sair da caverna, descobre a verdade e volta para contar aos outros, ninguém acredita nele e preferem continuar vivendo na caverna.

A base dessas duas histórias é a mesma: uma mentira sendo usada para gerar medo e manter alguém sob controle.

Eu não fui esperta o suficiente para descobrir sozinha que a cobra era um mito, mas fui corajosa a ponto de enfrentar o medo que eu sentia e isso diz muito sobre a pessoa que eu já dava indícios que me tornaria.

Vovó só antecipou um tipo de situação que eu voltaria a enfrentar muitas e muitas vezes no quintal da minha própria vida e na minhas cavernas particulares, algumas das quais eu já me libertei e outras onde ainda sou prisioneira porque nem sequer descobri que estou presa ou porque já descobri mas não encontrei um jeito de sair. E tem também aquelas cavernas onde permaneço porque não me dei conta de que a saída já está desobstruída.

No quintal dos outros há sempre o risco de ser habitado por cobras, então eu piso com cuidado. Algumas vezes eu nem piso, porque já pressinto a ameaça. Há ainda aqueles quintais com placas sinalizando perigo. Automaticamente eu acredito nas placas e não me aproximo, mas às vezes o quintal é tão lindo que eu entro pra conferir se não é como era o da minha avó. Pode acontecer de uma cobra me picar. E pode não acontecer também. Quando vale a pena, eu assumo o risco. Ou assumo que já fui bem mais destemida e não vou. Tem dias que qualquer minhoca me paralisa e não há nada no mundo que me faça encostar meu dedo mindinho num canteirinho.

Quando não há metáfora barata que me convença a sair da minha caverna ou a entrar no quintal do Papa é porque o cagaço tá mesmo grande. Aí eu faço como um sábio amigo me ensinou: vou de fraldas, mas vou mesmo assim.

Do quintal da minha avó só sobrou uma roseira que meu pai plantou lá em casa e colocou uma plaquinha onde se lê “Dona Norma”. Na primavera ela fica linda, apesar de papai raramente podá-la. Suspeito que ele goste de vê-la crescendo desordenada com seus espinhos afiados, arredia como sua mãe. Eu não me atrevia a mexer nela, mais intimidada pelo nome gravado na placa do que pelos espinhos. Até que um dia Arthur, meu sobrinho de cinco destemidos anos de vida, com a ajuda do avô, foi lá, tirou uma rosa e me ofereceu.

Tá bom, Dona Norma. Eu entendi.

Papai e Arthur

Arthur e a rosa da Dona Norma

Arthur e a rosa da Dona Norma

Roberta Simoni

Me avisa quando chegar

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Uma frase. Um peso.

Das vezes em que eu estive namorando e saia desacompanhada dos meus ex-namorados e eles me pediam pra eu avisar quando chegasse, pelo menos 50% das vezes – sendo bem razoável – não era porque eles estavam preocupados comigo andando sozinha por aí, era porque eles queriam saber até que horas eu fiquei fora, o que eu fiz, com quem estive, etc.

Como julgá-los? Quem nunca disse um “me avisa quando chegar” que atire a primeira pedra. Eu já disse. E não foi só uma vez. E não foi só para um namorado. E nem sempre foi pelos motivos certos. Parece que quando estamos num relacionamento a dois, a necessidade de saber o que o outro anda fazendo fica latente,  como se isso fizesse alguma diferença. Como se não fosse muito simples se trancar no banheiro do bar, ligar bocejando, dizendo que está indo dormir e continuar na farra. É bonito fazer isso? Não, crianças, não é bonito. Se eu já fiz isso? Não, eu não fiz. Mas é possível que já tenham feito comigo. E se fizeram, foi bem feito pra mim. Se eu não tivesse pedido com intenções escusas, ninguém teria se sentido compelido a mentir. Óbvio que não estamos falando de mentirosos compulsivos aqui. Aí é outro caso. Mas isso fica pra outro texto.

Uma frase. Dois significados.

Você coloca um parente, um amigo ou até mesmo seu cônjuge dentro do táxi, se despede e diz “me avisa quando chegar”. Você está genuinamente preocupado se ele(a) chegará bem ao seu destino. Agora, sua namorada está saindo para uma festa com os amigos e você quer que ela avise quando chegar porque está preocupado? Ou está com ciúmes? Vamos ser francos. Seu namorado vai para a pelada de quarta-feira e você pede pra ele ligar quando voltar porque você quer ter o controle da relação ou dele, não porque você está interessada na quantidade de gols que ele consegue fazer.

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Uma frase. Três consequências.

Esse tipo de pedido pode gerar reações adversas. As mais comuns são as reações do tipos 1, 2 e 3.

Tipo 1 – o indivíduo se sente extremamente desconfortável com o pedido, tem vontade de negar, mas, diante da solicitação pretensiosa disfarçada de zelo, não consegue. E fica ainda mais irritado porque sabe que terá que dar satisfações fingindo que acredita que o pedido é bem intencionado.

Tipo 2 – o indivíduo identifica rapidamente que estão tentando controlá-lo, diz que vai avisar quando chegar e ignora solenemente o pedido. Depois diz que esqueceu, evita a fadiga e devolve com a mesma moeda a atitude dissimulada.

Tipo 3 – o indivíduo se sente querido e agradecido com a preocupação demonstrada por quem solicitou o pedido. Neste terceiro caso, podemos observar que a reação do tipo 3 ocorre em dois tipos de indivíduos: os dotados de ingenuidade ou os dotados de sensibilidade para detectar quando existe uma intenção boa de verdade.

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O apelo

Só peça para alguém te avisar quando chegar seja lá onde for se houver uma preocupação genuína. Se você pede isso por hábito, pare um pouquinho, descanse um pouquinho, 560km… (ok, só vai entender essa piada quem nasceu nos anos 80 ou antes). Agora, falando sério, pare, reflita e desvende a verdadeira intenção do seu pedido. Você pode descobrir que é um(a) controlador(a) de marca maior.

Se você acaba de se dar conta disso, temos aqui um trabalho para o seu super analista/terapeuta. O meu termina aqui. De nada. 😉

Até a próxima, amiguinhos!

Roberta Simoni

Tá tudo bem

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A virada desse ano foi simbólica pra mim, a começar pelo jeito e o local onde resolvi passar: sozinha, no quarto. Parece triste e solitário, mas é só o que parece. A cama estava aconchegante, minha playlist estava ótima e eu ainda consegui escrever e meditar.

No primeiro dia do ano fui a uma confraternização na casa de uns amigos e conheci um casal muito simpático com quem fiquei conversando. Eles contavam animados como tinha sido sua passagem de ano e, a certa altura, me perguntaram como foi a minha. Falei que passei sozinha, sem qualquer expressão de tristeza ou de euforia, como quem fala: “fui à padaria e comprei um pão”. Mesmo assim rolou um silêncio constrangedor. Eles se entreolharam e a moça comentou: “puxa, se tivéssemos te conhecido antes teríamos te convidado para passar com a gente”. Não, pera… calma, gente! Tentei explicar que passar a noite de ano novo sozinha foi uma escolha consciente, mas era tarde demais. Eles vão achar para sempre que sou uma coitada-carente-problemática-solitária. Tudo bem também. Uma coisa que venho tentando parar de fazer é ficar me explicando o tempo todo. “Deixa que digam, que pensem, que falem”, já cantava Jair… ah, deixa isso pra lá.

2015 foi um ano de introspecção pra mim. E eu não estou substituindo a palavra depressão por introspecção, embora eu tenha flertado com a Laura (nome de batismo da minha depressão, pra quem não sabe) muitas vezes e até me atracado com ela vez ou outra, não nego. Mas não posso culpá-la por toda a barra que eu enfrentei no ano passado. Seria injusto. Laura não me deixou apática, prostrada numa cama como fez anos atrás, quando eu ainda não sabia como lidar com ela. Agora eu sei, bitch!

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Eu até tive muitos momentos de aparente prostração e alguns até foram na cama, mas eu estive, durante todo aquele tempo, refletindo, questionando, buscando alcançar alguma compreensão sobre as coisas que eu estava passando, tentando entender o processo doloroso que eu estava vivendo e toda a responsabilidade que eu tinha por estar no meio dele, para, finalmente, passar de fase. Ufa, passei!

Não me permitir assumir o papel de vítima (nem de vilã) me deu bônus em vidas extras para conseguir sair daquela fase medonha e passar para uma bem mais serena e feliz.

A fase atual vai bem, obrigada. Os momentos de introspecção (ou de apagão na vida em sociedade) persistem, mas na hora do recreio não tem pra ninguém. Eu abro minha lancheira da Mulher Maravilha e de dentro dela saem biscoitos recheados e chocolates de todos os tipos, salgadinhos e todas as porcarias deliciosas do mundo, e eu me jogo nelas como se não houvesse amanhã. Brinco com as outras crianças e vou em todos os brinquedos do pátio como se o sinal anunciando o fim do recreio não fosse soar a qualquer momento.

Quando o sinal toca, eu volto para o meu mundinho e tudo bem. Às vezes eu durmo durante a aula porque brinquei demais no recreio, aí eu compenso passando o intervalo seguinte estudando e tá tudo bem também.

Tá tudo bem.

Tá tudo bem em não querer estar em festas regadas a champanhe no réveillon ou na praia de Copacabana, tropeçando em despachos, tomando banho de Sidra Cereser e sendo levada pelo arrastão. E tá tudo bem em querer também. Tá tudo bem em negar o convite para ir numa viagem ou para participar de uma confraternização só para os amigos mais chegados na casa da Marcela, que é na serra, no apartamento do Osmar, que é de frente para o mar ou no apartamento do Jairo, que é meu vizinho de bairro. Tá tudo bem em não querer sair do ar-condicionado, não comprar uma calcinha nova (ou não usar nenhuma) e ficar de camisola na noite de réveillon. Tá tudo certo. Tá tudo bem.

E tá melhor ainda não ter que explicar nada para ninguém no dia seguinte, quando eu sinto vontade de sair e encontrar os meus amigos que passaram a virada do ano na praia, na casa da Marcela, do Osmar ou do Jairo, porque ninguém ficou chateado comigo por eu ter escolhido ficar quieta no meu canto.

Dramatizar menos a vida também tem sido um exercício que eu venho tentando praticar. Ela já é suficientemente dramática sem a minha ajuda.

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Outro exercício que venho praticando é testar novas sensações diante de novas ou antigas situações, observar como eu me sinto quando faço algo fora do meu padrão de comportamento ou algo que todo-mundo-espera-que-todo-mundo-faça. E não é para ser diferente, porque já faz um tempinho que eu passei da fase de querer confete. Meus “testes” normalmente não fazem nenhum ruído, não contam com a colaboração alheia e não implicam em mudar a vida de ninguém, então passam despercebidos, e é assim que deve ser.

É para descobrir coisas novas a meu respeito que eu me testo. Estou muito interessada em conhecer essa pessoa que anda com meu corpo por aí e esse corpo que anda carregando as emoções que eu senti e as experiências que eu vivi.

Tem sido embaraçoso e esclarecedor. Divertido e assustador. Sobretudo, tem sido transformador.

Não suspeito aonde essas transformações vão me levar e prefiro não dar palpites por enquanto. É cedo, a caminhada é longa e eu tô numa estrada escura sem nenhuma placa de sinalização. Dá medo, mas é bom. O céu nunca esteve tão estrelado.

Roberta Simoni 

A mulher que restou

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Minha vida está num lugar onde já esteve outras vezes e ao mesmo tempo onde eu nunca estive na vida. Se por um lado eu tenho a sensação de estar me repetindo e me repetindo e me repetindo, por outro, tudo parece novo. Ou velho, mas diferente. Eu já conheço esse lugar, tudo me é familiar, exceto eu mesma.

Eu saí despedaçada de um longo relacionamento porque, ao que tudo indica, eu não consigo sair de outro jeito. Ou não conseguia. Ainda é cedo para dizer. Até hoje foi assim: eu me dando inteira, me partindo ao meio e depois catando os meus caquinhos pelo chão. Só que, dessa vez, eu não consegui juntar todos os cacos. Cheguei a tentar colar os pedaços que trouxe comigo um monte de vezes. Era o que eu sempre fazia. Me colava aqui, me costurava acolá, fazia uma emenda com os fios soltos e voilà, ficava razoavelmente funcional outra vez para amar.

Só que, dessa vez, os pedaços de mim que ficaram pelo caminho eram de tal forma essenciais que nada pôde ser feito. Ficou faltando um monte de cacos para colar, de retalhos para costurar e fios para ligar. Não teve como dar jeito. O que se perdeu em mim, se foi para sempre. Para nunca mais.

Deixei mobília, objetos pessoais, peças de roupas íntimas e o que eu era para trás. O homem que eu amei conheceu uma mulher que homem nenhum voltará a conhecer. Deixei ela lá, para ele continuar fazendo o que bem entender dela. Ferir. Amar. Maldizer. Possuir. Ela já era muito mais dele do que minha.

Como pude ter sido tanto de alguém e tão pouco minha? A parte que ficou de mim sempre questiona isso. Me indaga, magoada. Peço perdão a ela todos os dias. Ela ainda não aceita. Por enquanto só se ressente. A parte que ficou é mais intransigente do que eu gostaria que fosse. “É para o seu próprio bem” – ela se defende.

Os buracos que antes me doíam de maneira aguda, as lacunas que jamais voltarão a ser preenchidas, as feridas que ficaram abertas, me deixando febril e inflamada passaram a incomodar menos quando parei de urrar de dor. Quando silenciei, deixei de ouvir o eco que fazia o meu grito estridente no vazio que ficou. Ainda dói. Vai doer por mais algum tempo, mas eu aceitei a dor. Já desisti de ficar tentando juntar os cacos que me faltam. Eles sempre vão me faltar, mas não necessariamente vão me fazer falta para sempre. Fazem menos agora que desisti de me emendar.

E eu já não sei se tenho interesse em recuperar o que eu era. Prefiro deixar tudo pra ele, sem divisão de bens. O que eu era vai morrer com ele, a menos que ele decida doar para alguém. Não importa mais.

Uma vez eu disse a ele que não tinha heranças para deixar depois que eu partisse dessa para melhor. Eu estava enganada. Ainda não havia me dado conta do valor de tudo que ele herdaria. Ele ficou com tudo que eu perdi. E tinha também um bocado de coisa bonita e valiosa ali. Tinha a doçura das coisas frágeis. Tinha eu com tudo que até então eu conhecia sobre mim.

Depois que eu parti (e foi mesmo para melhor), ele quis saber se já havia um novo amor. Há, mas eu não disse. Ele não entenderia. Meu novo amor é essa mulher desfigurada que me encara diante do espelho. Uma quase estranha, que eu tenho me dedicado a conhecer, compreender, respeitar e a gostar. Isso, é claro, quando ela não fica me lembrando que eu fracassei de novo, quando não esfrega na minha cara as cicatrizes que ganhou por minha causa. É doloroso ter de olhar pra ela. Mesmo assim eu olho. Todos os dias.

Nos dias bons, quando eu coloco um olhar mais demorado sobre ela, vejo-a através das marcas e das perfurações impossíveis de retocar. Algumas vezes consigo até ver uma certa beleza nessa mulher que restou. Foi tanto o que ela perdeu que ficou mais leve. Mais simples. Mais ela.

Desde que eu fui embora, nunca mais estive inteira. Quando me olho no espelho só enxergo uma parte de mim, mas essa parte, a que ficou, eu amo profundamente.

Roberta Simoni