Dane-se o transtorno, precisamos falar sobre separação

088ad6c8214e923014e38347f848f062

Já faz um ano que falei para o meu ex-marido que eu não queria mais estar casada com ele. A dor dessa decisão, que já vinha crescendo antes desse dia, se esticou por mais alguns, quando, de fato, consegui ter forças para sair de casa. Foi uma dor larga, longa e profunda e, apesar disso, é uma dor que eu recomendo para casos de infelicidades largas, longas e profundas, porque quando ela passa…  quando passa é substituída por uma paz tão boa e generosa, que faz a gente pisar mais leve no mundo, que antes pesava tanto nas nossas costas.

Hoje, quando acordei sozinha, lembrei que faz mais de um ano que acordo sozinha e não doeu. Já não dói há muito tempo. Lembrei de todas as manhãs que eu acordava sozinha porque ele estava dormindo na sala pela milésima vez por causa de alguma birra sem sentido. Eu olhava pra ele, dormindo todo espremido naquele sofá que eu detestava – e tinha deixado que ele escolhesse pra não gerar mais uma briga inútil – e pensava no desperdício. De tempo, de energia, de vida. E de lençóis de casal, que só eu usava pra tentar cobrir minhas angústias, que cresceram até ficarem descobertas, com os pés de fora.

O sofá ficou. Eu fui embora.

É claro que nós tivemos momentos felizes ao longo dos anos que passamos juntos. E nos agarrávamos a eles porque foram reais e tínhamos a esperança de que voltassem a ser. Alguns ficaram registrados em fotos, vídeos, textos. E era através desses registros que a maioria das pessoas nos enxergava, como se fôssemos tão permanentes quanto imagens congeladas numa fotografia. “Mas vocês pareciam tão felizes…” É claro que parecíamos, pois estávamos. Naquele momento. Mas momentos se dissolvem, e evaporam. Só quem tem o privilégio de revivê-los sempre que quiser é a memória.

Ninguém tira fotos durante uma discussão ou enquanto chora no banheiro sem saber o que fazer com os planos incríveis que se tornaram falíveis e com as mágoas que vão se entulhando por todos os cantos da casa enquanto o amor, o tesão e a admiração estão ficando empoeirados no quartinho dos fundos.

Uma das coisas mais dolorosas que se enfrenta ao romper uma relação amorosa é ter que romper com os sonhos sonhados juntos, com a rotina que foi construída e principalmente com a ideia do que poderia ter sido, mas não foi.

Eu descobri que muito mais difícil do que me desapegar da nossa vida, era conseguir me desapegar daquilo que ela poderia ter sido.

Eu não quero dizer com isso que descobrindo ficou mais fácil, tampouco estou dizendo que separação é um processo tranquilo. Nãããão! É um troço medonho. Acaba com as nossas energias. E com nossas economias. Faz a vida da gente virar do avesso. Mas é aí que tá: o avesso pode se revelar surpreendentemente interessante.

Ninguém entra numa relação porque não tem nada melhor pra fazer (ou não deveria entrar). O investimento é alto, em todos os sentidos, e o prejuízo é bem maior do que o de alguém que aposta uma grana alta no cavalo errado. E é por isso que muitos relacionamentos duram bem mais do que deveriam e vão se estendendo até que se encontre um jeito de amenizar os traumas e os desgastes que virão com o rompimento.

Talvez você não esteja preparado para ler isso, então, me perdoe de antemão se eu estiver matando o seu Papai Noel. A golpes de facada. Na sua frente. Mas sabe aqueles casais de velhinhos que você vê juntos e acha muito fofinhos? Então… ELES NÃO ESTÃO FELIZES (afinal, quem é que tá? Já é tempo de parar de superestimar a felicidade, inclusive a conjugal).

Eles podem ter envelhecido juntos por escolha, porque se amam? Podem, claro. Mas pode ser também que eles simplesmente não tenham encontrado um jeito de separar suas vidas e pela força das circunstâncias tenham continuado juntos. Podem ter se acomodado apesar do amor ter acabado. Um dos dois pode ter continuado porque teve medo de partir, ou porque sentiu culpa, compaixão. Ou porque era conveniente. Talvez eles tenham esperado os filhos crescerem, mas aí as crianças viraram adultos, os anos se passaram e eles perderam o timing. As possibilidades são infinitas. Não se iluda achando que uniões duradouras são sinônimos de uniões bem sucedidas.

Separações também não significam que a relação tenha sido um fracasso. Deu certo até parar de dar.

Esse ano teve Jolie deixando Brad, Fátima ficando sem Bonner. Teve Du Moscovis voltando pra pista. Teve Fernanda Gentil(mente) explicando pra gente que se separou do marido porque eles não estavam felizes e mereciam buscar a felicidade em outros lugares. E teve muita, muita gente dizendo que desistiu de acreditar no amor depois de ver que até “casais perfeitos” como esses se separam.

Primeiro engano: não existe casal perfeito, nem casamento. Segundo: separações não deveriam nos levar a perder, mas a recuperar a fé no amor. Casais famosos e anônimos se separam todos os dias justamente porque se atrevem a acreditar que podem voltar a amar e serem amados.

Pessoas permanecem juntas porque apostam no amor tanto quanto pessoas se separam porque não desistem dele. No fundo, tá todo mundo tentando ser feliz, de um jeito ou de outro.

As coisas acabam. E recomeçam. E tá tudo certo. O que não tá certo é se prender àquilo que já se soltou.

E o mundo continua girando.

Roberta Simoni

Preconceito está em um relacionamento sério com Ignorância

Ironia

“Ele é homossexual mas é um cara inteligente”. Li essa frase no Facebook de alguém que não se julga de maneira alguma preconceituoso.

Não foi a primeira vez que li ou ouvi isso por aí. E não consigo enxergar esse comentário por outra perspectiva senão a do preconceito. Pra mim é como dizer, por exemplo, que alguém “é pobre, mas é limpinho”, como se o fato de ser pobre anulasse a possibilidade dessa mesma pessoa possuir a qualidade de limpa, porque é contraditória à sua característica destacada, no caso, a pobreza.

Ser pobre ou homossexual não é defeito, tampouco escolha. Imagine alguém dizendo “ah, meu sonho é ser pobre” ou “a partir de agora quero ser gay porque acho cool”. Além disso, apontar essas características (ou condições) seguidas de qualidades torna tudo ainda mais sofrível. Na verdade, o que está sendo dito é: “ele é gay, mas para compensar essa enorme falha, ao menos é inteligente.”

Quando alguém diz que fulano é gay, mas é inteligente parece que a qualidade não está presente no adjetivo. Ele é gay, portanto está implícito que não é inteligente. Como se a inteligência fosse uma característica exclusiva de heterossexuais e aquele cara ali – que se relaciona com pessoas do mesmo sexo e apesar disso é não é burro – é apenas uma exceção à regra.

O mesmo exemplo se aplica para qualquer outra qualidade que vem depois da conjunção adversativa MAS, que indica clara oposição entre ideias.

“Ele é gay, mas tem um coração enorme”, “ela é lésbica, mas é gente boa”. Os exemplos são inesgotáveis, tais como os absurdos que as pessoas verbalizam, muitas vezes sem se darem conta do preconceito embutido nessas afirmações.

É como se o fato de homossexuais possuírem qualidades fosse um grande consolo para esse tremendo deslize, não de caráter, mas de orientação sexual.

O mais lamentável é alguém achar que está elogiando ou enaltecendo a qualidade do outro desse jeito sem perceber que o preconceito está presente ali, inerente ao adjetivo.

Ninguém se refere aos heterossexuais dessa maneira, mesmo porque se um homem faz sexo com uma mulher e vice-versa, são consideradas pessoas normais. É senso comum. Mas se homens transam com homens e mulheres transam com mulheres… bom, aí tem alguma coisa muito errada, a começar pela anatomia humana, que não foi projetada para esses fins, isso sem entrar no mérito religioso, que julga relacionamentos homossexuais como algo que vai absolutamente contra as leis divinas.

Leis? Meu corpo, minhas regras. Seu corpo, suas regras.

Divinas? Todas as manifestações de amor são.

Refira-se a um homossexual como você se refere a um hetero. Apenas diga o que ele é, sem precisar destacar sua sexualidade como sua caraterística proeminente, sobretudo esqueça o que ele faz ou deixa de fazer entre quatro paredes, isso não te diz respeito, muito menos influencia na personalidade nem nas ações dele enquanto indivíduo. Ou então arrume um defeito de verdade para identificá-lo. Homossexualidade não é desvio de caráter, não é problema, não é doença e passa muito, muito longe de ser um defeito.

Mais do que superar seus preconceitos, você precisa se livrar da sua ignorância.

Roberta Simoni

Dialogando no Escuro

11986920_534492090037212_1941642039491381151_n

Quando o Mário Di Poi, meu amigo paulistano, me convidou para visitar a exposição “Diálogo no Escuro” e me contou que a INPUT Arte Sonora era responsável pela produção e instalação de som, fiquei animada. O trabalho desses caras é sempre incrível e eu sou fã de carteirinha do Alexandre Guerra, amigo querido, que foi quem compôs a trilha sonora da exposição.

Mas até aí tudo que eu sabia era que havia um dedinho do Alê e do Mário na exposição e isso já era um prenúncio de boa coisa, mas foi só quando cheguei no Museu Histórico Nacional e entrei na exposição é que comecei a ter uma vaga noção da experiência que eu viveria nos próximos minutos. Mesmo assim ainda era uma noção muito, mas muito vaga.

De antemão já digo que, de todas as exposições interativas que visitei até hoje, essa foi a que mais gostei e a que certamente nunca vou esquecer do que “vi”, impossíveis de fotografar e de registrar com a memória visual porque – como o nome da exposição já sugere – ela acontece toda no escuro e, na ausência do sentido da visão, os outros sentidos (especialmente o da audição e do tato) ficam apurados e viram os nossos “olhos”.

O conceito da exposição é mostrar como é o mundo sem o sentido da visão. Os visitantes são conduzidos por guias deficientes visuais através de salas totalmente escuras, em que cheiro, som, vento, temperatura e textura apresentam as características de ambientes cotidianos como parques, ruas, comércios e praias.

Durante 45 minutos a sensação é a de estar na pele de um deficiente visual. E o que eu achei mais emocionante durante o percurso foi ter confiado plenamente cada passo meu na voz da minha guia, que também não podia ver, mas já condicionada à cegueira, é capaz de enxergar no escuro tudo o que eu não consigo ver.

Dentre as várias sensações, reflexões e desafios que a exposição proporciona, a de sair da nossa zona de conforto para mergulhar num universo completamente novo é uma das mais ricas. Nessa inversão de papeis, somos nós que damos passos cegos num terreno desconhecido e que, no entanto, é o mundo comum dos nossos guias.

Logo que se entra no primeiro ambiente, mesmo com a possibilidade de se apoiar nas paredes e usar a bengala, a sensação de cegueira absoluta é um tanto angustiante. Nossos olhos aflitos ficam buscando algum ponto de luz para usarem como referência e, como não encontram, nossa audição toma o controle da situação e é a voz de quem nos guia que nos conforta e nos faz sentir seguros, além, é claro, da consciência de estarmos dentro de um ambiente especialmente projetado para que pessoas sem o menor traquejo consigam transitar no escuro em segurança.

Quando a angústia passa e nos sentimos mais à vontade no breu é que começamos, de fato, a dialogar no escuro. E é aí que a magia acontece.

A exposição já passou por vários lugares do mundo, esteve em São Paulo e está no Rio desde o começo de março e eu não teria ouvido falar a respeito dela se não fosse pelo envolvimento dos meus amigos na montagem. Tenho falado da exposição para todo mundo na intenção de divulgá-la, uma vez que não vejo divulgações pela cidade e considero uma experiência única e imperdível, tanto que repeti a dose ontem, com a desculpa de levar minha amiga Gabs para conhecer.

As duas visitas foram incríveis. Se a primeira foi mais emocionante pelo fator surpresa, a segunda foi mais interessante, pois já estando um pouco familiarizada com o ambiente, consegui prestar mais atenção nos detalhes e testar melhor meus sentidos. Cibele e Verônica, as duas moças que me guiaram durante minhas visitas, foram adoráveis (e pacientes, respondendo minhas perguntas, que não foram poucas) . Foi graças a elas também que o passeio foi tão prazeroso.

Mais do que isso não vou dizer pra não dar spoiler e para que você, que tá no Rio (ou que estará nos próximos meses) termine de ler esse texto e vá correndo viver essa experiência. A exposição fica na cidade até outubro, mas há um limite de visitas por dia, por isso os ingressos (R$12 – inteira) são vendidos antecipadamente. Mais detalhes aqui.

Acho difícil alguém sair daquelas salas escuras do mesmo jeito que entrou. Minha empatia natural por deficientes visuais só fez crescer. Mais do que enxergá-los com outros olhos, eu também passei a ver a vida sob uma perspectiva diferente (e eu não tô falando só da ótica visual). Além de sensibilizar e conscientizar, a exposição aproxima universos e quebra barreiras.

Mexeu comigo de um jeito que eu ainda não consigo descrever. Alcançou uma parte de mim que na claridade não dá pra ir porque é impossível encontrar o caminho. Um lugar que só se chega tateando o escuro. Uma paz que eu só encontro quando me perco.

Uma vez um moço fazedor de poesia, domador de palavras e notas musicais, de olhar inquieto e e gestos doces, passou por aqui e disse que meus olhos são como o breu. Talvez seja isso.

Roberta Simoni

A cobra da minha avó

Cobra de Estimação

Dona Norma, minha avó paterna, nunca se encaixou no estereótipo da avó tradicional dos anos 80. Era uma senhora baixinha e gordinha, fora isso não tinha qualquer semelhança com a Dona Benta. Foi criada de maneira rígida e com rigidez criou os filhos. Não era lá muito maternal, tampouco sutil. Falava aos berros e vivia se queixando da vida. Os domingos de visita à sua casa entrariam para a lista dos mais entediantes nas minhas recordações.

Vovô Chiquinho – que ainda vive mas nem tanto, pois está acamado há muitos anos, em estado vegetativo – era quem conseguia tornar aqueles domingos menos torturantes, sobretudo quando o encontrávamos de péssimo humor. O mau humor era seu estado natural, mas havia dias em que nem ele se suportava e quando calhava disso acontecer num domingo era uma tremenda sorte nossa! O velho rabugento falava e gesticulava sem parar, sempre indignado com alguma coisa ou com alguém, do Presidente da República ao pernilongo, ele sempre tinha o que reclamar dizer.

Era ótimo assistir meu avô dando um espetáculo (ainda que fosse de ira) e meus pais gargalhando compulsivamente. Eu não decifrava muito bem o que eles diziam, mas entendia que estavam se divertindo e ver adultos se divertindo me deixava curiosa e animada. Não era todo dia que eu via um panda, assim como era raro ver um adulto feliz. Uma coisa exótica de tal maneira que eu parava o que estivesse fazendo para assistir.

Vovó Norma, entre uma queixa e outra, oferecia todo tipo de fruta que tinha em casa. E insistia. Insistia. E insistia de novo. Era o jeito dela de demonstrar carinho. Pena que eu só fui me dar conta disso quando já era tarde para aceitar um daqueles pedaços de melancia com afeto.

*Nota: até hoje quando eu fico muito insistente, papai só me olha e diz: “Não queeero, Norrrrrma”. Às vezes é só assim que eu entendo. Cada um tem a herança que merece, afinal.

Minha irmã e eu estávamos mal acostumadas com a nossa avó materna, com quem passávamos a maior parte do tempo. Ela preparava (e prepara até hoje) sobremesas incríveis e abastecia a dispensa com todo tipo de guloseima para receber a “netaiada” toda. Daí vinha a outra vó e oferecia fruta? “Não, não vó, brigada, a gente tá sem fome”. Quando ela se dava por vencida, falava entre os dentes: “ai, crianças chatas!”

Mas era quando ela insistia pra gente almoçar que o bicho pegava. Verdade seja dita, vovó não era boa cozinheira. Exceto meu pai, que jamais concordará comigo, pois tem um paladar nada exigente (além disso, estamos falando mal da mãe dele aqui), nós comíamos sem o menor prazer. Eu e meus primos, inclusive, tínhamos o péssimo habito de enterrar no quintal o que a gente não conseguia digerir. Era uma atitude pouco inteligente, mas achávamos que nunca seríamos descobertos…

Um dia vovó apareceu com uma novidade: foi regar as plantas e deu de cara com uma cobra enorme. E venenosa!

Costumávamos ser crianças destemidas, mas não a ponto de brincar num lugar onde havia uma cobra venenosa à solta, de modo que comecei a passar longe do quintal que – aos meus grandes olhos de menina pequena que enxergava imensidão em tudo – parecia uma floresta, repleta de plantas enormes, pé de tudo quanto era fruta, hortas e flores de várias cores. Era um jardim selvagem e caótico, mas tinha vida. Tudo ali respirava. Era o que fazia dele bonito. Pena que a presença de um bicho peçonhento fez minha pequena selva ganhar um tom sombrio.

By Christian Schloe

Eu, que já era curiosa antes mesmo de me entender como gente, todo domingo chegava lá ansiando por notícias da cobra. Vovó só faltava passar um relatório completo das aparições da bicha. “Hoje mesmo, um pouco antes de vocês chegarem, ela estava atrás daquele arbusto, mas a miserável fugiu quando seu avô foi atrás”. Minha irmã e eu ficávamos com os olhos arregalados, atentas a qualquer movimento rastejante. Por mais que ela garantisse que a cobra não entraria em casa, eu sempre me sentava sobre minhas pernas, temendo ser pega desprevenida e levar um bote.

Com o passar do tempo, a cobra foi ganhando um espaço no quintal e na vida da minha avó que nem ela poderia supor. “Hoje ela estava pendurada naquele abacateiro ali, né Chiquinho?” e meu avô só balançava a cabeça, concordante. Mamãe e papai não se manifestavam. Não alimentavam o medo que vovó tinha plantado na gente, mas também não podiam desmenti-la. Imagino o quão difícil tenha sido para o meu pai, que sofre de excessos, de sinceridade em especial, a ponto de ter nos poupado de lidar com a frustração da inexistência do Papai Noel, por exemplo. Ele nos oferecia a verdade pra variar, já que o mundo se encarrega de oferecer infinitas fomas de ilusão.

Mas a cobra era o espantalho contra netos da minha avó. O quintal era dela e isso lhe dava o direito de colocar um espantalho para cada neto se assim o quisesse. E quem se opusesse a isso teria dois trabalhos: o de confrontar a baixinha invocada e o de se conformar em perder o confronto.

Sei que eu não colocava meus pés miúdos naquele quintal nem por um decreto. Morria de medo. Antes disso uma cobra era só uma cobra, não uma ameaça. Eu gastava minha cota de medos como qualquer outra criança: com fantasmas, monstros e bruxas, embora meus pais tentassem me convencer de que eles não eram reais.  A cobra não. Ela existia. E eles não podiam negar.

E eu, que já tinha uma relação ambígua desde cedo com o medo, capaz de me paralisar e de me motivar, comecei a me desafiar a colocar um pé no quintal. Depois os dois. Depois a dar dez passos, tocar no pé de fruta do conde e voltar correndo. Um dia decidi desbravar o terreno à procura da cobra e quanto mais acelerado batia meu coração, mais excitada eu ficava. Tudo ia bem, eu ia vencendo os desafios criados por mim mesma paulatinamente, até vovó descobrir minha ousadia e no domingo seguinte me contar que a cobra deu cria.

Não sei por quantos anos vovó alimentou essa fantasia, também não sei por que ela sentia necessidade de inventar tantas histórias se uma só já bastava para nos manter afastados das suas plantas. Talvez ela tenha passado a acreditar na própria mentira depois de ter contado tantas vezes. A única certeza que tenho é que seu jardim se manteve conservado graças àquela mentira. Só quando estávamos mais crescidinhos e já não representávamos tanta ameaça ao seu quintal, ela contou que tinha encontrado a cobra morta. Cheguei a ficar de luto pela bicha e preocupada com as cobras órfãs.

Ao sentenciar a morte da peçonhenta, vovó matava sua mentira conveniente e a minha fantasia de encontrá-la. Ela só não matou o meu medo porque eu mesma já tinha tratado de dar fim nele algum tempo antes, mais ou menos na mesma época que perdi o interesse pelo seu quintal.

Passei boa parte da minha vida acreditando ingenuamente na existência daquela cobra por um simples motivo: eu não tinha razões para duvidar. Nunca passaria pela minha cabeça que alguém pudesse inventar uma mentira tão cabeluda quando podia simplesmente pedir, proibir ou me educar a não fazer determinada coisa. Era assim que meus pais costumavam agir comigo e isso era tudo o que eu conhecia sobre limites.

Anos mais tarde, quando meu primo contou (achando muito engraçado) que aquilo tudo não tinha passado de uma farsa, eu me senti uma tola. Vovó nunca soube que me magoou, mas se tivesse sido comunicada certamente teria me mandado deixar de ser chata, como fazia quando eu me negava a comer uma de suas suculentas frutas.

A sensação de ter sido enganada não foi a das mais agradáveis, mas não era a primeira vez que acontecia, nem seria a última. E passou longe de virar um trauma, pois não havia potencial para tanto. Dramaturgicamente falando seria até mais interessante se eu tivesse desenvolvido alguma fobia por serpentes ou rancor pela minha avó, mas fato é que nada disso aconteceu. Quando me tornei adulta, lembrava disso de um jeito cômico e com um certo saudosismo de uma fase livre de qualquer desconfiança. E agora, enquanto escrevo, percebo como o quintal e a cobra são simbólicos pra mim.

Quando eu fiz a disciplina de filosofia na faculdade e li sobre o Mito da Caverna de Platão fui automaticamente transportada ao quintal de Dona Norma. A grosso modo, o mito conta que prisioneiros passavam a vida inteira presos numa caverna, de frente para uma parede, onde sombras enormes eram projetadas através da luz da chama de uma fogueira. Eram apenas sombras de coisas que existiam e aconteciam do lado de fora, mas eles acreditavam que eram seres malignos e que se tentassem sair, seriam mortos por eles, dessa forma, o medo os mantinha presos. Quando um dos prisioneiros consegue sair da caverna, descobre a verdade e volta para contar aos outros, ninguém acredita nele e preferem continuar vivendo na caverna.

A base dessas duas histórias é a mesma: uma mentira sendo usada para gerar medo e manter alguém sob controle.

Eu não fui esperta o suficiente para descobrir sozinha que a cobra era um mito, mas fui corajosa a ponto de enfrentar o medo que eu sentia e isso diz muito sobre a pessoa que eu já dava indícios que me tornaria.

Vovó só antecipou um tipo de situação que eu voltaria a enfrentar muitas e muitas vezes no quintal da minha própria vida e na minhas cavernas particulares, algumas das quais eu já me libertei e outras onde ainda sou prisioneira porque nem sequer descobri que estou presa ou porque já descobri mas não encontrei um jeito de sair. E tem também aquelas cavernas onde permaneço porque não me dei conta de que a saída já está desobstruída.

No quintal dos outros há sempre o risco de ser habitado por cobras, então eu piso com cuidado. Algumas vezes eu nem piso, porque já pressinto a ameaça. Há ainda aqueles quintais com placas sinalizando perigo. Automaticamente eu acredito nas placas e não me aproximo, mas às vezes o quintal é tão lindo que eu entro pra conferir se não é como era o da minha avó. Pode acontecer de uma cobra me picar. E pode não acontecer também. Quando vale a pena, eu assumo o risco. Ou assumo que já fui bem mais destemida e não vou. Tem dias que qualquer minhoca me paralisa e não há nada no mundo que me faça encostar meu dedo mindinho num canteirinho.

Quando não há metáfora barata que me convença a sair da minha caverna ou a entrar no quintal do Papa é porque o cagaço tá mesmo grande. Aí eu faço como um sábio amigo me ensinou: vou de fraldas, mas vou mesmo assim.

Do quintal da minha avó só sobrou uma roseira que meu pai plantou lá em casa e colocou uma plaquinha onde se lê “Dona Norma”. Na primavera ela fica linda, apesar de papai raramente podá-la. Suspeito que ele goste de vê-la crescendo desordenada com seus espinhos afiados, arredia como sua mãe. Eu não me atrevia a mexer nela, mais intimidada pelo nome gravado na placa do que pelos espinhos. Até que um dia Arthur, meu sobrinho de cinco destemidos anos de vida, com a ajuda do avô, foi lá, tirou uma rosa e me ofereceu.

Tá bom, Dona Norma. Eu entendi.

Papai e Arthur

Arthur e a rosa da Dona Norma

Arthur e a rosa da Dona Norma

Roberta Simoni

Me avisa quando chegar

What?

Uma frase. Um peso.

Das vezes em que eu estive namorando e saia desacompanhada dos meus ex-namorados e eles me pediam pra eu avisar quando chegasse, pelo menos 50% das vezes – sendo bem razoável – não era porque eles estavam preocupados comigo andando sozinha por aí, era porque eles queriam saber até que horas eu fiquei fora, o que eu fiz, com quem estive, etc.

Como julgá-los? Quem nunca disse um “me avisa quando chegar” que atire a primeira pedra. Eu já disse. E não foi só uma vez. E não foi só para um namorado. E nem sempre foi pelos motivos certos. Parece que quando estamos num relacionamento a dois, a necessidade de saber o que o outro anda fazendo fica latente,  como se isso fizesse alguma diferença. Como se não fosse muito simples se trancar no banheiro do bar, ligar bocejando, dizendo que está indo dormir e continuar na farra. É bonito fazer isso? Não, crianças, não é bonito. Se eu já fiz isso? Não, eu não fiz. Mas é possível que já tenham feito comigo. E se fizeram, foi bem feito pra mim. Se eu não tivesse pedido com intenções escusas, ninguém teria se sentido compelido a mentir. Óbvio que não estamos falando de mentirosos compulsivos aqui. Aí é outro caso. Mas isso fica pra outro texto.

Uma frase. Dois significados.

Você coloca um parente, um amigo ou até mesmo seu cônjuge dentro do táxi, se despede e diz “me avisa quando chegar”. Você está genuinamente preocupado se ele(a) chegará bem ao seu destino. Agora, sua namorada está saindo para uma festa com os amigos e você quer que ela avise quando chegar porque está preocupado? Ou está com ciúmes? Vamos ser francos. Seu namorado vai para a pelada de quarta-feira e você pede pra ele ligar quando voltar porque você quer ter o controle da relação ou dele, não porque você está interessada na quantidade de gols que ele consegue fazer.

tumblr_mcmv6lMPCf1ryhfsl

Uma frase. Três consequências.

Esse tipo de pedido pode gerar reações adversas. As mais comuns são as reações do tipos 1, 2 e 3.

Tipo 1 – o indivíduo se sente extremamente desconfortável com o pedido, tem vontade de negar, mas, diante da solicitação pretensiosa disfarçada de zelo, não consegue. E fica ainda mais irritado porque sabe que terá que dar satisfações fingindo que acredita que o pedido é bem intencionado.

Tipo 2 – o indivíduo identifica rapidamente que estão tentando controlá-lo, diz que vai avisar quando chegar e ignora solenemente o pedido. Depois diz que esqueceu, evita a fadiga e devolve com a mesma moeda a atitude dissimulada.

Tipo 3 – o indivíduo se sente querido e agradecido com a preocupação demonstrada por quem solicitou o pedido. Neste terceiro caso, podemos observar que a reação do tipo 3 ocorre em dois tipos de indivíduos: os dotados de ingenuidade ou os dotados de sensibilidade para detectar quando existe uma intenção boa de verdade.

gifgif1

O apelo

Só peça para alguém te avisar quando chegar seja lá onde for se houver uma preocupação genuína. Se você pede isso por hábito, pare um pouquinho, descanse um pouquinho, 560km… (ok, só vai entender essa piada quem nasceu nos anos 80 ou antes). Agora, falando sério, pare, reflita e desvende a verdadeira intenção do seu pedido. Você pode descobrir que é um(a) controlador(a) de marca maior.

Se você acaba de se dar conta disso, temos aqui um trabalho para o seu super analista/terapeuta. O meu termina aqui. De nada.😉

Até a próxima, amiguinhos!

Roberta Simoni

Tá tudo bem

tatudobem

A virada desse ano foi simbólica pra mim, a começar pelo jeito e o local onde resolvi passar: sozinha, no quarto. Parece triste e solitário, mas é só o que parece. A cama estava aconchegante, minha playlist estava ótima e eu ainda consegui escrever e meditar.

No primeiro dia do ano fui a uma confraternização na casa de uns amigos e conheci um casal muito simpático com quem fiquei conversando. Eles contavam animados como tinha sido sua passagem de ano e, a certa altura, me perguntaram como foi a minha. Falei que passei sozinha, sem qualquer expressão de tristeza ou de euforia, como quem fala: “fui à padaria e comprei um pão”. Mesmo assim rolou um silêncio constrangedor. Eles se entreolharam e a moça comentou: “puxa, se tivéssemos te conhecido antes teríamos te convidado para passar com a gente”. Não, pera… calma, gente! Tentei explicar que passar a noite de ano novo sozinha foi uma escolha consciente, mas era tarde demais. Eles vão achar para sempre que sou uma coitada-carente-problemática-solitária. Tudo bem também. Uma coisa que venho tentando parar de fazer é ficar me explicando o tempo todo. “Deixa que digam, que pensem, que falem”, já cantava Jair… ah, deixa isso pra lá.

2015 foi um ano de introspecção pra mim. E eu não estou substituindo a palavra depressão por introspecção, embora eu tenha flertado com a Laura (nome de batismo da minha depressão, pra quem não sabe) muitas vezes e até me atracado com ela vez ou outra, não nego. Mas não posso culpá-la por toda a barra que eu enfrentei no ano passado. Seria injusto. Laura não me deixou apática, prostrada numa cama como fez anos atrás, quando eu ainda não sabia como lidar com ela. Agora eu sei, bitch!

tumblr_nbb5xkkWiF1tjydheo1_500

Eu até tive muitos momentos de aparente prostração e alguns até foram na cama, mas eu estive, durante todo aquele tempo, refletindo, questionando, buscando alcançar alguma compreensão sobre as coisas que eu estava passando, tentando entender o processo doloroso que eu estava vivendo e toda a responsabilidade que eu tinha por estar no meio dele, para, finalmente, passar de fase. Ufa, passei!

Não me permitir assumir o papel de vítima (nem de vilã) me deu bônus em vidas extras para conseguir sair daquela fase medonha e passar para uma bem mais serena e feliz.

A fase atual vai bem, obrigada. Os momentos de introspecção (ou de apagão na vida em sociedade) persistem, mas na hora do recreio não tem pra ninguém. Eu abro minha lancheira da Mulher Maravilha e de dentro dela saem biscoitos recheados e chocolates de todos os tipos, salgadinhos e todas as porcarias deliciosas do mundo, e eu me jogo nelas como se não houvesse amanhã. Brinco com as outras crianças e vou em todos os brinquedos do pátio como se o sinal anunciando o fim do recreio não fosse soar a qualquer momento.

Quando o sinal toca, eu volto para o meu mundinho e tudo bem. Às vezes eu durmo durante a aula porque brinquei demais no recreio, aí eu compenso passando o intervalo seguinte estudando e tá tudo bem também.

Tá tudo bem.

Tá tudo bem em não querer estar em festas regadas a champanhe no réveillon ou na praia de Copacabana, tropeçando em despachos, tomando banho de Sidra Cereser e sendo levada pelo arrastão. E tá tudo bem em querer também. Tá tudo bem em negar o convite para ir numa viagem ou para participar de uma confraternização só para os amigos mais chegados na casa da Marcela, que é na serra, no apartamento do Osmar, que é de frente para o mar ou no apartamento do Jairo, que é meu vizinho de bairro. Tá tudo bem em não querer sair do ar-condicionado, não comprar uma calcinha nova (ou não usar nenhuma) e ficar de camisola na noite de réveillon. Tá tudo certo. Tá tudo bem.

E tá melhor ainda não ter que explicar nada para ninguém no dia seguinte, quando eu sinto vontade de sair e encontrar os meus amigos que passaram a virada do ano na praia, na casa da Marcela, do Osmar ou do Jairo, porque ninguém ficou chateado comigo por eu ter escolhido ficar quieta no meu canto.

Dramatizar menos a vida também tem sido um exercício que eu venho tentando praticar. Ela já é suficientemente dramática sem a minha ajuda.

Orange-Is-The-New-Black-image-orange-is-the-new-black-36056674-500-250

Outro exercício que venho praticando é testar novas sensações diante de novas ou antigas situações, observar como eu me sinto quando faço algo fora do meu padrão de comportamento ou algo que todo-mundo-espera-que-todo-mundo-faça. E não é para ser diferente, porque já faz um tempinho que eu passei da fase de querer confete. Meus “testes” normalmente não fazem nenhum ruído, não contam com a colaboração alheia e não implicam em mudar a vida de ninguém, então passam despercebidos, e é assim que deve ser.

É para descobrir coisas novas a meu respeito que eu me testo. Estou muito interessada em conhecer essa pessoa que anda com meu corpo por aí e esse corpo que anda carregando as emoções que eu senti e as experiências que eu vivi.

Tem sido embaraçoso e esclarecedor. Divertido e assustador. Sobretudo, tem sido transformador.

Não suspeito aonde essas transformações vão me levar e prefiro não dar palpites por enquanto. É cedo, a caminhada é longa e eu tô numa estrada escura sem nenhuma placa de sinalização. Dá medo, mas é bom. O céu nunca esteve tão estrelado.

Roberta Simoni 

A mulher que restou

8058802c71d41effe9e9807e55964d54

Minha vida está num lugar onde já esteve outras vezes e ao mesmo tempo onde eu nunca estive na vida. Se por um lado eu tenho a sensação de estar me repetindo e me repetindo e me repetindo, por outro, tudo parece novo. Ou velho, mas diferente. Eu já conheço esse lugar, tudo me é familiar, exceto eu mesma.

Eu saí despedaçada de um longo relacionamento porque, ao que tudo indica, eu não consigo sair de outro jeito. Ou não conseguia. Ainda é cedo para dizer. Até hoje foi assim: eu me dando inteira, me partindo ao meio e depois catando os meus caquinhos pelo chão. Só que, dessa vez, eu não consegui juntar todos os cacos. Cheguei a tentar colar os pedaços que trouxe comigo um monte de vezes. Era o que eu sempre fazia. Me colava aqui, me costurava acolá, fazia uma emenda com os fios soltos e voilà, ficava razoavelmente funcional outra vez para amar.

Só que, dessa vez, os pedaços de mim que ficaram pelo caminho eram de tal forma essenciais que nada pôde ser feito. Ficou faltando um monte de cacos para colar, de retalhos para costurar e fios para ligar. Não teve como dar jeito. O que se perdeu em mim, se foi para sempre. Para nunca mais.

Deixei mobília, objetos pessoais, peças de roupas íntimas e o que eu era para trás. O homem que eu amei conheceu uma mulher que homem nenhum voltará a conhecer. Deixei ela lá, para ele continuar fazendo o que bem entender dela. Ferir. Amar. Maldizer. Possuir. Ela já era muito mais dele do que minha.

Como pude ter sido tanto de alguém e tão pouco minha? A parte que ficou de mim sempre questiona isso. Me indaga, magoada. Peço perdão a ela todos os dias. Ela ainda não aceita. Por enquanto só se ressente. A parte que ficou é mais intransigente do que eu gostaria que fosse. “É para o seu próprio bem” – ela se defende.

Os buracos que antes me doíam de maneira aguda, as lacunas que jamais voltarão a ser preenchidas, as feridas que ficaram abertas, me deixando febril e inflamada passaram a incomodar menos quando parei de urrar de dor. Quando silenciei, deixei de ouvir o eco que fazia o meu grito estridente no vazio que ficou. Ainda dói. Vai doer por mais algum tempo, mas eu aceitei a dor. Já desisti de ficar tentando juntar os cacos que me faltam. Eles sempre vão me faltar, mas não necessariamente vão me fazer falta para sempre. Fazem menos agora que desisti de me emendar.

E eu já não sei se tenho interesse em recuperar o que eu era. Prefiro deixar tudo pra ele, sem divisão de bens. O que eu era vai morrer com ele, a menos que ele decida doar para alguém. Não importa mais.

Uma vez eu disse a ele que não tinha heranças para deixar depois que eu partisse dessa para melhor. Eu estava enganada. Ainda não havia me dado conta do valor de tudo que ele herdaria. Ele ficou com tudo que eu perdi. E tinha também um bocado de coisa bonita e valiosa ali. Tinha a doçura das coisas frágeis. Tinha eu com tudo que até então eu conhecia sobre mim.

Depois que eu parti (e foi mesmo para melhor), ele quis saber se já havia um novo amor. Há, mas eu não disse. Ele não entenderia. Meu novo amor é essa mulher desfigurada que me encara diante do espelho. Uma quase estranha, que eu tenho me dedicado a conhecer, compreender, respeitar e a gostar. Isso, é claro, quando ela não fica me lembrando que eu fracassei de novo, quando não esfrega na minha cara as cicatrizes que ganhou por minha causa. É doloroso ter de olhar pra ela. Mesmo assim eu olho. Todos os dias.

Nos dias bons, quando eu coloco um olhar mais demorado sobre ela, vejo-a através das marcas e das perfurações impossíveis de retocar. Algumas vezes consigo até ver uma certa beleza nessa mulher que restou. Foi tanto o que ela perdeu que ficou mais leve. Mais simples. Mais ela.

Desde que eu fui embora, nunca mais estive inteira. Quando me olho no espelho só enxergo uma parte de mim, mas essa parte, a que ficou, eu amo profundamente.

Roberta Simoni

Você tá precisando transar

Ok

Numa bela manhã, mandei uma mensagem para o WhatsApp da minha mãe contando que eu havia marcado um horário pra ir naquela consulta médica que ela estava insistindo tanto pra eu marcar, também tinha conseguido agendar a renovação da minha habilitação e, de quebra, dado entrada numa documentação burocrática que eu andava postergando. Era uma manhã atípica. Eu estava orgulhosíssima de mim, mostrando meu feito pra minha mãe como eu fazia quando era criança, na época que eu estava aprendendo a nadar. Cada vez que pulava na piscina sem as boias nos braços, eu gritava: “Olha, mãe!”, ela parava o que estivesse fazendo para me olhar. Quando eu voltava à superfície, procurava o olhar de aprovação dela, que sempre vinha seguido de alguma exclamação do tipo “Muito bem!” ou “Que linda! Já sabe nadar sozinha!”

Perceba que, com meus trinta anos, continuo agindo da mesma maneira. Os anos vão passar e, enquanto eu continuar tendo a minha mãe, muito provavelmente vou continuar me sentindo no direito de agir como filha. E ela vai continuar gostando de agir como mãe. Pra minha sorte ela é incansavelmente maternal.

A única diferença é que, com o passar dos anos, minha mãe virou minha amiga. A melhor. Dessas que apoiam na hora que tem que apoiar e sacaneiam (no melhor sentido) quando o momento é apropriado.

Assim que mandei a mensagem pra ela contando todas as coisas que eu tinha conseguido agilizar naquela manhã, ela respondeu: “Não tô acreditando. Aposto que você andou transando!”

O que dizer? Eu tinha mesmo feito sexo na madrugada que antecedeu aquela manhã gloriosa de resoluções. Depois que consegui parar de gargalhar com a constatação precisa dela, perguntei: “Como foi que você adivinhou?”

Ela não precisou responder o óbvio. Minha disposição para resolver todas aquelas coisas chatíssimas só podia mesmo ter a ver com uma energia vital, que ela prontamente deduziu como energia sexual, embora eu não tivesse ligado os pontos até que ela começasse a me sacanear. Agora, toda vez que uma de nós fica mal-humorada, dizemos uma pra outra: “Você tá precisando transar”. É o nosso código para “você tá muito chata e precisa fazer alguma coisa prazerosa pra mudar seu humor”. Pulamos a parte de tentar encontrar alguma atividade prazerosa e sugerimos logo sexo. Obviamente existem outras formas de sentir prazer e de espantar o mau humor, mas a primeira que nosso cérebro processa é a que encabeça a lista de “atividades prazerosas”.

Num mundo perfeito, sair por aí sugerindo que as pessoas façam sexo não seria considerado ofensa e sim um excelente conselho. Mas o mundo infelizmente não se resume a relações tão espontâneas assim.

Na semana passada o jornalista Ricardo Boechat mandou o pastor Silas Malafaia procurar uma rola. Muita gente considerou a frase extremamente grosseira e ofensiva. Eu entendi como um conselho valiosíssimo, que se aplica ao malfadado Malafaia e à grande parte da humanidade. Em outras palavras, o que ele estava dizendo era: vá procurar uma atividade prazerosa – como, por exemplo, se divertir com uma rola – no lugar de ficar disseminando o mal e se preocupando com o cu alheio.

Que tal lançarmos a campanha “Você tá precisando transar”? Podemos começar dizendo isso para aqueles amigos com quem temos mais intimidade, até que o conselho se estenda a quem somos obrigados a conviver e que está precisando transar urgentemente e se ocupar em alcançar e proporcionar orgasmos, seja para se reconciliar com o lado prazeroso da vida ou para melhorar o humor e a disposição e, com isso, tornar-se mais funcional e menos intragável.

Isso não significa que o aconselhado vá aceitar a sugestão, mas talvez faça com que perceba que está desperdiçando energias poderosas em coisas, lugares e pessoas erradas. A lógica é simples: pessoas sexualmente ativas são mais felizes e pessoas felizes enchem menos o saco dos outros.

Por um mundo onde as pessoas façam mais sexo e menos mimimi.

Roberta Simoni

Adeus às juras de amor eterno trancadas sobre o Rio Sena

locks4

A Pont des Arts, em Paris, que ficou popularmente conhecida como “Ponte do Amor” por ter se tornado um santuário para casais apaixonados que procuravam imortalizar seu amor deixando um cadeado com suas iniciais preso às grades metálicas de proteção da ponte se tornou uma ameaça à segurança. Segundo a prefeitura de Paris, os cadeados estragam a estética da ponte, são estruturalmente ruins e podem provocar acidentes.

Depois de uma parte da grade ter entrado em colapso por causa do peso, representando um risco potencial para a navegação no rio Sena, as autoridades decidiram pela retirada dos milhares de cadeados, que representavam um peso de mais de 45 toneladas. As grades serão substituídas por painéis cobertos de arte de rua e, posteriormente, ganharão uma proteção de acrílico para impedir que o ritual romântico seja retomado.

Um casal de turistas, que saiu da América e viajou até a Europa com o intuito de eternizar seu amor em Paris declarou: “Nós viemos com a ideia de colocar um cadeado, mas descobrimos que está fechado e agora é ilegal, por isso nós vamos prendê-lo aqui no final da ponte para que ninguém possa ver.”

29164417694713_g-860x568

A partir da declaração do casal, na notícia que li no site do G1, construí a seguinte trama. Acompanhem:

Satisfeitos por terem conseguido prender o cadeado num cantinho escondido e menos cobiçado da ponte, marido e mulher recém-casados, voltaram para o hotel onde haviam acabado de se hospedar, trocaram mais juras de amor eterno e fizeram amor como nunca. Depois, com os corpos entrelaçados debaixo dos lençóis, com a respiração ainda ofegante, lembraram do feito ilegal mais cedo, na ponte, e riram. Tudo era motivo de riso, sobretudo porque estar em Paris já é motivo suficiente para alguém se sentir feliz, em especial para o casal, que planejou a viagem de lua-de-mel com tanta antecedência e guardou suas economias durante tanto tampo para tornar aquela viagem possível.

Sendo assim, o sonho de conhecer Paris não estaria completo se não conseguissem prender o cadeado que simboliza o amor eterno dos dois, mesmo que pra isso precisassem passar por cima da lei vigente que proíbe o feito. “Ninguém vai perceber”, pensaram.

No segundo dia em Paris, ele queria conhecer o Museu do Louvre, mas ela insistia em ir até a Torre Eiffel para tirar uma foto e postar no Facebook, afinal, estar em Paris e não tratar de ter logo um registro diante do maior símbolo da cidade era como se não estivessem lá. O dia amanheceu nublado e logo que saíram do hotel começou a chover fininho. Diante da temperatura climática pouco favorável, o marido fez de tudo para tentar convencer a mulher a abandonar a ideia de visitar a Torre Eiffel naquele dia. Mas nem a chuva nem o argumento de que ainda teriam uma semana para passear pela cidade fez a mulher mudar de ideia. Ela estava irredutível.

Aquela teimosia sem um propósito louvável, fez com que ele se irritasse profundamente a ponto de não pronunciar uma só palavra no trajeto até o local. E quanto mais ela perguntava o que estava acontecendo, mais ele se irritava. As fotos do casal diante da Torre foram, possivelmente, as piores de toda a viagem. Não porque a chuva tivesse atrapalhado ou porque a falta de luz por conta do céu cinzento tivesse prejudicado tanto assim mas, porque ele saiu de cara emburrada em todas as fotos. Ela acabou escolhendo a foto onde aparecia sozinha para publicar no Facebook. Na legenda, escreveu: “Nem mesmo esse tempo chuvoso é capaz de tornar Paris menos bonita, ainda mais na companhia do meu amor.”

Enquanto ele tentava traduzir o cardápio do restaurante para decidir o que pedir para o almoço, ela verificava o celular. Centenas de curtidas na foto. Quando ele começou a reclamar que ela não largava o telefone, ela finalmente o colocou sobre a mesa, mas toda vez que chegava uma notificação, ela tornava a pegá-lo para ver quem havia curtido a foto e o que haviam comentado. Ele só queria que eles decidissem o que iam pedir, pois estava faminto. Ela, no entanto, parecia plenamente satisfeita saciando sua vaidade.

Na manhã seguinte, ela acordou animada, foi até a janela, abriu a cortina e disse: “Bom dia, meu amor… está fazendo um dia lindo lá fora. Acorda! Vamos sair.” Ele olhou o relógio. Ainda nem eram oito da manhã. Colocou o travesseiro na cara para tentar se esconder da claridade e voltar a dormir. Ela sabia que ele não ia conseguir levantar tão cedo, então tratou de deixá-lo na cama por mais algum tempo enquanto tomava banho e se arrumava. Quando já estava pronta, tornou a acordá-lo. Ele custou alguns minutos para sair da cama, e custou ainda mais tempo para sair do banheiro e, quando saiu, ainda estava só de cueca. Ela tentou apressá-lo para não perderem o café da manhã do hotel. Ele argumentou que não sente fome de manhã, pediu que ela fosse sozinha e prometeu que quando voltasse, estaria pronto para saírem. Só que quando ela voltou, deu de cara com ele dormindo, do mesmo jeito que estava quando o deixou. Naquele dia, eles nem saíram do hotel, de tanto que brigaram.

No outro dia ela resolveu ceder e concordou em irem até o Louvre, embora preferisse infinitamente fazer compras. Ele ficou maravilhado com o museu, e aquilo a deixou feliz. Eles pareciam estar finalmente se entendendo. O que ela não supunha é que para conhecer o Louvre, eles precisariam percorrer o museu por muitas horas, talvez o dia inteiro. Logo a felicidade se transformou num tédio incontrolável, que refletiu em queixas de cansaço, fome e vontade de ir ao banheiro. Assim que alcançaram o salão onde fica exposto o quadro da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, ela o convenceu a irem embora. Ele saiu frustrado por não conseguir conhecer o museu todo.

Dali em diante, todos os passeios, por mais bonitos e ensolarados que estivessem os dias, foram chatos. Nem mesmo a grandiosidade da Catedral de Notre-Dame ou a beleza do Jardim de Luxemburgo os encantaram. E eles discutiam o tempo todo, por qualquer bobagem.

No último dia de viagem, depois de fazerem o check-out no hotel, tomaram um táxi para o aeroporto. No caminho, passaram pela Pont des Arts. Ela viu homens trabalhando e guindastes retirando as grades repletas de cadeados. Notou que até mesmo a última grade da ponte, onde haviam prendido o cadeado e feito juras de amor, tinha sido retirada. Suspirou, chateada.

Embora namorassem há algum tempo, aquela era a primeira viagem que faziam juntos. E acabaram descobrindo, da pior forma, que não eram parceiros ideais em viagens. O que levou ambos a questionarem se não eram, também, compatíveis na vida. Tão logo voltaram para casa e começaram a rotina de casados, se descobriram profundamente infelizes. Não demorou muitos meses até que optassem, de comum acordo, pela separação.

Ele decidiu que casamento não era coisa pra ele. Ela, até hoje, acha que a culpa é do cadeado, que deu azar.

BprhPPyCEAAd2Zu

O que aprendemos com a retirada das grades com os “cadeados de amor” da Pont des Arts na história sem final feliz do casal de turistas? 

Nada. No máximo, que uma coisa não tem nada a ver com a outra. O casamento pode não der dado certo por inúmeros motivos: porque eles não se empenharam tanto, porque não havia amor suficiente, porque eles não tinham nada em comum ou simplesmente porque não era pra ser. Mas o cadeado, coitado, nada tem a ver com o rumo dessa história.

A verdade é que nós adoramos rituais românticos ou, pelo menos, boa parte da humanidade gosta e, por isso, lamentamos o triste fim da “Ponte do Amor”, especialmente os casais que tinham seus cadeados presos à ela.

Agora, o que aprendemos com a retirada das grades com os “cadeados de amor” da Pont des Arts do ponto do vista metafórico?

Aprendemos que se nem uma ponte com grades de metal suporta o peso de tantos cadeados, o que dirá nós? Cadeados pesam. Também prendem e protegem mas, sobretudo, pesam.

Além do óbvio, que é senso comum, sobre juras de amor não serem eternas (e também o amor que, quase sempre, acaba tendo o mesmo fim que os cadeados presos às grades), estou usando a ponte descaradamente como metáfora para chegar a mais uma conclusão: a gente faz com os nossos relacionamentos algo bem semelhante àquilo que os casais apaixonados fizeram com a ponte francesa. Colocamos cadeados enormes e pesadíssimos nas nossas relações amorosas. Existem cadeados de vários formatos, cores, tamanhos e pesos, mas o maior e mais pesado deles é o cadeado da expectativa.

A gente sabe disso e, mesmo assim, entra e sai das relações insistindo nesse erro. Nós somos realmente muito bons nisso. Temos verdadeiros “criadouros de expectativas”. Então, se a gente decidir seguir em frente com isso, que, pelo menos, as chaves dos cadeados não sejam jogadas no rio, de onde é praticamente impossível recuperá-las mas, entregues nas mãos dos nossos parceiros, para que eles decidam o que fazer com elas: permanecer acorrentados aos cadeados, tentando suprir ou alcançar nossas expectativas, ou se libertar deles.

No melhor dos mundos a gente não chega nem a usar cadeados para, no fim, ninguém ter que decidir o que fazer com chave nenhuma.

Criar expectativas acerca do outro e/ou em torno da relação é quase tão inevitável quanto impedir que uma ponte repleta de cadeados desabe. Para evitar que alguém saia ferido de um possível acidente, a prefeitura de Paris está tomando providências. Sigamos o exemplo da Cidade Luz.

000_par8185325

Foto: Stephane De Sakutin/AFP

Roberta Simoni

Os Imortais

Imortais

Havia anos que eu não passava dias mais longos com meus pais. Minhas visitas aconteciam num intervalo de dois ou três meses, sempre nos fins de semana, que passavam voando entre a casa deles, da minha irmã e da minha avó, roteiro que eu seguia à risca todas as vezes que visitava a cidade. Normalmente não sobrava tempo para andar distraída por aí, para ver o mar que eu mergulho desde menina ou para ficar num bar até mais tarde jogando conversa fora com amigos de uma vida inteira.

No verão deste ano eu fui para passar mais dias e, sem aquela pressa costumeira das minhas visitas de médica, mais do que passar, eu passeei pela cidade como não fazia há muito tempo. Ou talvez como eu nunca tenha feito enquanto morava lá. Eu caminhava até a praia todos os dias, escolhia os cantos menos badalados e ficava por lá até a hora que me desse vontade, depois pegava o caminho mais longo e ia passando por vários bairros (que me remetiam a muitas situações memoráveis que vivi) até chegar na casa dos meus pais, que até hoje chamo de “lá em casa”.

Sou de Cabo Frio, uma pequena cidade litorânea no estado do Rio, onde a maior parte da minha família vive até hoje e onde vivi por 19 anos. Poderiam ter sido 30 se eu não tivesse teimado em ir embora na primeira oportunidade que tive, ou melhor, na primeira oportunidade que criei, verdade seja dita. Mais do que o desejo de fazer a faculdade de jornalismo, eu estava determinada a viver uma outra vida. Acabei vivendo várias. Algumas boas, outras nem tanto. Mas todas absolutamente diferentes daquela que eu tinha, que não era nada mau, era apenas previsível, o pesadelo de toda alma inquieta.

A questão é que não importa o quão longe você vá e o quão boas ou ruins sejam as lembranças do lugar de onde você veio, em algum momento você acaba se esbarrando com elas numa dessas esquinas da vida. E, considerando o tamanho da cidade onde nasci e cresci, eu devia saber que a probabilidade de eu dar de cara com as minhas em algum momento era bem grande.

Donde se presume que esses belos dias que passei em Cabo Frio não se resumiram só a experiências prazerosas. Numa tarde de segunda-feira, quando acompanhava minha mãe numa ida ao banco, dei de cara com dois fantasmas de carne e osso. O primeiro estava bem na esquina da agência bancária e atende pelo nome de “Professor Marcelo”, meu terror durante quatro longos anos da minha infância, meu professor de natação, com quem eu tinha encontros marcados todas as terças e quintas-feiras, pontualmente às sete da manhã, fizesse sol ou chuva.

Foi graças a ele que descobri que eu era barriguda. Característica física, inclusive, que possuo até hoje, só que em maior proporção. Como esquecer do jeito singelo como o professor Marcelo me fez notar minha barriga proeminente? “Vamo lá, Robertinha, vamo perder essa barriguinha!”. Eu enrolava toda vida para fazer os exercícios abdominais antes de começar o treino e ele não deixava barato: “Ô Roberta, que preguiça é essa? Assim você vai ficar barrigudinha pra sempre. Mais 20 abdominais para deixar de ser mole”. Ele falava isso alto o suficiente para eu sentir sua saliva espirrando na minha cara enquanto ele segurava meus pés até que eu terminasse o exercício. Eu queria morrer e matá-lo mas, no lugar disso, só sentia raiva mesmo, embora eu tenha plena consciência que se eu tivesse alguém como ele, me fazendo lembrar todos os dias que estou barriguda, muito provavelmente eu estaria mais satisfeita com a minha forma física hoje.

Minha irmã Elisa e eu com nossos professores de natação. Eu sou aquela ali, com os braços cruzados, tentando esconder a barriguinha, ao lado do professor Marcelo.

Minha irmã Elisa e eu com nossos professores de natação. Eu sou aquela ali, com os braços cruzados, tentando esconder a barriga, ao lado do professor Marcelo.

E Marcelo não só estava na esquina como também fez questão de me abraçar e me beijar. E quando eu perguntei se ele se lembrava de mim, ele garantiu que sim, com aquela risada inconfundível dele, que me fez ter a certeza de que não estava blefando.

Atravessando a rua, lá estava o segundo fantasma: tia Olinda. A dentista que colaborou muitíssimo para transformar o medo das minhas idas ao consultório odontológico em pânico absoluto por toda uma vida. Minha mãe e ela se cumprimentaram alegremente, tia Olinda olhou para mim e perguntou para minha mãe: “Essa é a sua caçula?”. Ela nem sequer se lembrava de mim, enquanto eu jamais esqueceria dela: a dentista que não tinha o menor jeito e paciência com criancinhas assustadas que fugiam de seu consultório e saiam correndo pelo corredor aos berros, fazendo uma pirraça fenomenal, como se estivessem sendo condenadas à morte na cadeira elétrica, quando tudo que ela tentava fazer era tratar de uma cárie. Obviamente, esse não era o tipo de coisa que uma menina comportada e boazinha como eu fosse capaz de fazer. Foi apenas uma história que ouvi por aí.

Esses dois encontros no espaço de três minutos e de um único quarteirão me fizeram pensar em como certas experiências determinam o rumo de uma vida inteira e de como as pessoas se eternizam na nossa memória de maneira inabalável.

Tanto ele quanto ela são muitas outras coisas além de professor e dentista, possuem qualidades e defeitos que eu desconheço e, muito provavelmente, são pessoas diferentes daquelas que conheci. Em mais de vinte anos eles devem ter se transformado um monte de vezes e se eu os conhecesse hoje, certamente os enxergaria de outro jeito, talvez até gostasse deles. Acontece que suas passagens pela minha vida os tornaram – nas minhas lembranças – figuras distorcidas de quem são na realidade.

Coincidentemente (ou não), eu li recentemente A Imortalidade, do Milan Kundera (livro que recomendo fortemente) e passei a compreender a imortalidade de um jeito completamente novo e que vem de encontro com esses dois personagens que esbarrei naquele dia: imortal não é aquele ou aquilo que vive para sempre, mas a maneira como cada pessoa ou experiência se eterniza na nossa memória.

Digamos que o Professor Marcelo e a Tia Olinda não tenham se eternizado da maneira mais legal de todas na minha memória mas, de certo, se imortalizaram. Convenhamos que não é todo mundo que passa pelo nosso caminho que se imortaliza, portanto, o mérito é inteiramente deles.

Trago comigo uma multidão de imortais magníficos também, que vão viver enquanto eu estiver viva, ou enquanto continuarem lendo as coisas que escrevi sobre eles.

E como uma reflexão sempre me leva à dezenas de outras, estou aqui a pensar de que maneira eu ando me imortalizando por aí. Não tenho a ilusão de ser lembrada com carinho por todo mundo cujas vidas eu participei de algum jeito em algum momento, nem sequer tenho a ilusão de nunca ser esquecida, tenho, inclusive, a consciência de que posso ser a “tia Olinda” de alguém, e mesmo assim tô achando um bocado bonito e divertido essa possibilidade de existir de várias formas.

A Imortalidade, Milan Kundera

Roberta Simoni