Somos mais.

No primeiro sonho eu usava um vestido tomara-que-caia branco, dançava e ria numa festa que acontecia no seu apartamento, que era o único que parmanecia intacto sobre a estrutura de um prédio em pleno desmoronamento. No segundo sonho o cenário era uma festa de gente elegante, e, segundo você, eu estava deslumbrante, num vestido escuro de veludo, que você não sabe se era verde musgo, azul marinho ou preto, tinha um decote bem cavado nas costas, minha cabeleira quase toda presa, com alguns cachos soltos, brincos enormes e brilhantes, uma gargantilha combinando, e eu sorria tanto, mas tanto… e girava e girava…

Eu era quase tão escandalosamente feliz quanto uma gargalhada. E você ficava em estado de êxtase puro, enquanto sonhava e, depois ainda, quando acordava.

Seu corpo que ainda teima em girar com o meu, feito criança que gosta da brincadeira e não quer nunca mais parar. Meu corpo que reage com gargalhadas gostosas e falta de ar. De olhos fechados, dá a impressão de que os nossos pés vão sair do chão e alçar vôo a qualquer instante. E a gente brinca. Brinca que a vida é uma festa, no seu apartamento entre ruínas, na minha cabana, numa festa de granfinos com brilhantes que ninguém diria que são falsos, ou na padaria da esquina, comendo o melhor pão com manteiga que existe.

Fico tonta, mas você continua a me rodar. Tenho medo, mas não dá vontade de parar. Você diz que não cabe dentro de tanta felicidade, e me falta fôlego para te responder que você é maior do que pode imaginar. O lustre do teto do quarto ainda está rodando, meu corpo está imóvel e silencioso, coberto com um tecido macio que não é o vestido de veludo do seu sonho, é só o lençol da minha cama que me envolve enquanto assisto aquelas duas criaturas divinas dançando, rodando e rindo alto, sem parar. O lustre cai, o teto some, e só o que existe é o céu da gente.

Que ousadia sua achar que eu existo além dos seus sonhos. E corajosa de mim acreditar que você é real. Não somos palpáveis. Somos mais.

Roberta Simoni

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Não quero ter razão…

Resolvo começar a fatiar o meu ano em estações. A quantidade de meses é maior que o número de estações, mas quem disse que quantidade é mais importante do que qualidade? Meses acabam muito depressa, e tantas vezes passam sem que eu sequer os perceba. Mas as estações não… essas são anunciadas pelo céu, pelo mar, pelos ventos e  chuvas, pelas cores, sabores, aromas e termômetros. E elas são, cada uma a seu modo, todas uma delícia.

Eu, que gosto especialmente da luz do outono, acordo hoje com vontade de ficar bonita para a luz dessa estação me encontrar na esquina de casa e realçar a minha alegria de estar viva. Eu, que não sou chegada a combinações, visto meu corpo de acordo com as cores da minha alma, e saio por aí, colorida.

Vou ao encontro de uma amiga querida, decidida a ceder aos encantos gastronômicos da cidade, na nossa livraria preferida. Me dou ao luxo de incluir na conta do almoço mais um livro. E depois compro uma saia rodada de bolinhas, porque não dou ouvidos ao meu senso de ridículo que tenta argumentar comigo. No crédito, por favor !!!

E no meio do dia eu lembro do Dudu e, mais uma vez, penso no quanto eu gostaria que ele não tivesse partido tão cedo. E toda vez que lamento sua ausência, eu levo um susto enorme, como da primeira vez que anunciaram sua morte. Não é como se eu tivesse esquecido, é como se eu simplesmente não soubesse. Já faz quase três anos e eu ainda não entendi direito. Era o nosso artista maior, nosso amigo mais inconsequente, que tinha o perdão de cada loucura só por ser dono do sorriso mais franco, e nós sempre o perdoávamos desde que ele viesse com aquela cara de moleque alegre, com aquele queixo charmoso furado ao meio, de sorriso largo e escandaloso. E com a imagem dele na cabeça, de repente, me pego rindo sozinha…

No caminho de volta para casa cumprimento com sorriros quem por mim passa, mas não perco muito tempo olhando para frente, ando com passos lentos olhando para o topo das árvores da minha rua que já amo profundamente como se tivessem sido, desde sempre, parte da minha vida. Qualquer dia eu acabo caindo, mas tudo bem, meus olhos confirmam que vale o risco.

As nuvens cobrindo o Corcovado anunciam a chuva que está por vir, e a minha casa se enche do cheiro premonitório de terra molhada. Da janela escancarada vejo os pássaros fazendo balé no céu cinza. Descubro que tenho algum vizinho que toca violino e compreendo que não preciso agora de nenhum outro ruído. Só o som do violino, o burburinho da cidade lá embaixo e a calmaria dos meus pensamentos, no ritmo harmonioso dos meus batimentos cardíacos.

Enquanto eu transformo o meu dia nesse cotidiano poético – que, sem causa ou justificativa, escrevo – sou induzida a olhar outra vez pela janela, e lá estão eles, se exibindo: pássaros fazendo questão de me lembrar que sou uma invejosa.

Mente quem diz que não sente inveja. Mente feio. Porque, ainda assim, a mentira não consegue ser tão horrorosa quanto a inveja, que não existe para ser admitida, tampouco assumida. E eu adoro as criaturas que voam, mas também as invejo. E por querer e não poder fazer o que só elas são capazes de fazer no céu é que eu jamais desejaria que elas não pudessem voar ou tentaria impedi-las de tal feito. Gaiola é abuso de poder, e a minha inveja é branca, clara feito neve, dessa cor serena que não é capaz de ser destrutiva, nem jamais pretenderia. Só quero voar com elas, mais nada.

E você quer saber como foi o sonho mais lindo que eu já tive na vida. E chora enquanto eu te conto, e os meus olhos se enchem d’água quando eu agradeço ao universo por me rodear de gente que ainda se emociona, e aí eu penso na inveja preta que muita gente de alma escura sente de mim por viver numa atmosfera tão generosa, e lembro das gaiolas e das mordaças que essa gente me oferece o todo o tempo. E sigo negando todas, com veemência.

E já não vejo mais pássaros, nem nuvens. Já é noite. E eu também gosto do escuro, porque aprendi a conviver com ele. E com o silêncio, e com os sentimentos que não são brancos, nem brandos. Eu vivo em vários mundos simultaneamente, e neles eu descubro do que gosto, do que não suporto, do que preciso, do que dispenso e do que aceito de bom grado. Nos meus vários mundos, eu misturo as estações e consigo viver em todas ao mesmo tempo, e desvendo mais do que vontades ou desgostos, descubro todas as minhas vertentes.

E entendo, finalmente: eu não quero ter razão, prefiro ser feliz.

“Já que sou, o jeito é ser.” (Clarice Lispector)

Roberta Simoni

Pinto no Lixo (ou Beta no Sebo)

O que é isso? Um pinto no lixo? Nãããão, é só a Beta no Sebo…

É desse jeitinho mesmo que eu estou me sentindo essa semana: um pinto no lixo! Não bastava estar contente por ter conseguido mudar de cidade (sim, outra vez!) e estar morando num cantinho muito agradável, ainda que temporário (como não poderia deixar de ser…), depois de passar quase 6 meses vivendo num lugar que eu aboninava, tamanha foi a minha felicidade ao descobrir que bem ao lado da minha nova toca tem um lugar mágico, também conhecido como Sebo!

Mas não é um sebo qualquer, é um lugar adorável, desses que você entra e não quer nunca mais sair. Eu moraria entre aqueles livros se não me cobrassem aluguel.

Mas, por hoje, o sebo já fechou e, a essa altura, algumas várias malas me aguardam, com algumas várias roupas dentro, que esperam ansiosas por viver dentro de um armário com algumas várias gavetas, depois de tanto tempo brigando por espaço dentro daquelas algumas várias malas. Pois é, eu ainda não tive coragem de avisá-las que o armário é temporário, deixo que curtam sem se preocuparem tanto com o amanhã. Eu e elas, todas feito pintinhos no lixo!

Para a euforia ficar completa, o que eu vejo da minha nova Janela de Cima ao acordar? O Corcovado, com um moço bonito, de braços abertos pra mim.

Impossível não me sentir abraçada por livros, armários e Cristos.

Roberta Simoni

A alegria dos prazeres inofensivos

Love

Respirar cheiro de gasolina. Pisar em folhas secas nas ruas de outono. Ver a primavera florindo. Dormir sem roupa no verão. Nadar pelado. Comer chocolate, tomar sorvete no inverno. Mergulhar no mar à noite. Ver o pôr-do-sol. Ouvir o silêncio da madrugada. Sentir o cheiro da terra molhada. Caminhar na beira da praia. Compor uma música. Tocar uma viola. Escrever uma poesia. Dar um beijo apaixonado. Acordar ao meio dia. Viajar sem comprar passagem de volta. Dar presentes. Receber presentes. Escrever uma carta. Receber uma carta. Ler um livro. Escrever um livro.

Ter um sonho bom, dormindo ou acordado. Brincar de pique-se-esconde. Tomar banho de água quente. Cantar debaixo do chuveiro. Ser acordado com beijos na nuca. Entrar numa calça que antes não cabia. Andar descalço. Tomar chocolate quente no frio. Ter uma mangueira no quintal de casa. Ter um quintal. Ter uma casa.

Jogar baralho. Ganhar uma aposta. Abraçar um amigo. Se embriagar com um amigo. Ter um amigo. Rir sem motivo. Sentir frio no umbigo. Fazer uma surpresa. Ser surpreendido. Ganhar dinheiro. Trabalhar com o que se gosta. Viajar o mundo. Se perder no mundo. Se encontrar sem estar perdido. Banho de chuva. Paixão de verão. Cinema com pipoca. Amizade canina. Espera no portão. Cheiro que trás lembrança. Colo de mãe. Gargalhada de filho.

Um brinde à alegria dos prazeres inofensivos, esses que costumam ser tão pequenos que, às vezes, não passam de detalhes. Detalhes que dão cheiro, cor , sabor e, principalmente, sentido à vida.

É impossível falar de pequenos prazeres e não pensar em Amélie Poulain, por isso, aqui vai o vídeo dessa fábula que sabe perfeitamente como alegrar os meus prazeres…

Roberta Simoni

A tristeza não é a vilã

Ela chegou sem avisar e me encontrou desprevenida e desarmada. Há muito ela vem tentando ser notada por mim, e aproveita qualquer espaço, por menor que seja, para se mostrar, porque não suporta mais ser ignorada. Cansou de ficar escondida por trás do meu sorriso sem graça, do meu olhar sem foco para o nada, da ausência da minha alegria e do meu entusiasmo de ser e existir. Deixo, então, que a tristeza ocupe o espaço que lhe tem sido negado, e que pertence à ela por direito, e espero que me mostre para quê veio.

Acho que quando a dor é aceita, dói pela metade, e se apressa para ir embora, pois uma vez aceita, incomoda cada vez menos, até perder o sentido de existir. Só que enquanto ainda dói, me faz sentir sono, e o sono vem depois do choro cansado e agudo que ela me provoca, sem se importar com mais nada, pedindo para a minha mente e o meu corpo se desligarem um pouco.

Chorar me faz até bem, alivia as angústias e me esvazia de mim mesma. Ando cansada de mim, cansada de existir, de tentar entender a mim, os outros e o mundo. Cansada de buscar respostas para o que é humanamente incompreensível. Então, deixe! Deixe que eu me esvazie do meu próprio cansaço mental e espiritual, deixe que eu me permita estar do jeito que eu preciso estar agora, mesmo sem um motivo “apalpável”. Minha alma não precisa de motivos para se recolher dentro de mim, mas ela só o faz quando eu permito, quando não me fecho na minha mediocridade disfarçada e no meu egoísmo, tão naturais aos humanos, que, por vezes me fazem esquecer que sou muito mais do que carne e osso.

Não acusem mais a tristeza de ser a vilã, parem de tentar camuflá-la em falsas alegrias e sorrisos amarelos. Não estou dizendo que temos que ser tristes, longe disso, o que quero dizer é que todos nós temos um pouco que seja de tristeza, que quando oprimida, fica cada vez mais incômoda, até ficar profunda e inflamada. Quando ela for inevitável, deixe que entre, trate-a com cordialidade, é apenas uma visita breve. Ela não vem para ficar, não quer tomar o espaço da alegria, é singela e humilde, e só vem para preparar o ambiente para uma futura alegria, que se antes não fosse uma dor, passaria despercebida.

“A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”. Não sei quem foi o sábio que disse essas palavras, mas ela sintetiza tudo o que quero dizer. Sentir dor é diferente de sofrer, o sofrimento fere e deixa marcas profundas, e pode ser uma escolha. A dor é inevitável, mas é sóbria e tem fundamento, chega e vai embora como uma brisa suave, não deixa saudades, mas te deixa melhor do que quando te encontrou.

Estar triste não é ser triste e a minha tristeza está  longe de ser sofrida. Eu não sou habituada a dor, mas, finalmente entendi que a dor me ajuda a crescer como gente, e a cada lágrima que ela provoca, me purifica e limpa os meus olhos para enxergarem tudo aquilo que preciso e que tenho – inconscientemente – me recusado a ver.

“A dor não é motivo de preocupação, faz parte da vida animal.” (Clarice Lispector)

Roberta Simoni