Procura-se Sentido


Amelie Poulain

Os sábios dizem que a gente veio ao mundo para aprender. Os religiosos defendem a ideia de que viemos ao mundo para evoluir. Os espiritualizados dizem que reencarnamos para queimar carmas. Os cabalistas acreditam que estamos aqui para receber e compartilhar luz. Há, ainda, quem garanta que pedimos para nascer, que escolhemos estar aqui e passar por tudo o que passamos. Não sei a resposta, mas todas essas alternativas fazem muito sentido pra mim, embora a vida, boa parte do tempo, não me pareça ter o menor sentido.

Na minha inocência infantil, eu passei muito tempo achando que eu tinha vindo parar aqui para ser feliz, quando, por fim, notei que felicidade é coisa que dá e passa, assim como os sentimentos de todos os gêneros. Mas então, peraí… a gente tá aqui para sofrer? É isso? Também não. Mas para ser feliz, garanto que não é. Se fosse, felicidade seria uma conquista ou um direito de todos, seria como na música do Chico: “(…) e pela minha lei, a gente era obrigado a ser feliz.” Somos obrigados a fazer uma lista infinita de coisas, muitas em nome da lei, mas cadê a lei que obriga a gente a ser feliz. Cadê?

Vai daí que um belo dia você acorda e descobre que tudo é cíclico. O que é bom por um lado, pois ganha a compreensão de que não há mal que seja eterno, e ruim por outro lado, pois entende também que não há bem que dure para sempre. Ok, entendi, vida. Mas e quando a gente cansa dessa gangorra interminável que é você? Eu, inutilmente, por vezes peço para o mundo parar porque eu quero, desesperadamente, descer. Mas o mundo continua ali, me ignorando e rodando, me ignorando e rodando. Porque, né, eu tô longe de ser o centro do universo.

Uma vez, no parque de diversões, eu fiz um brinquedo parar para eu descer. Aos berros e prantos, sem me importar com a vergonha de expôr o meu medo diante de todo mundo, esgoelando a minha coragem, firmada com tanto afinco após tantas subidas em grandes árvores e escaladas de altos muros, sem me importar com a chacota das outras crianças, eu não dei outra alternativa ao maquinista senão parar a geringonça que me jogava para o alto e para baixo, de um lado para o outro sem parar. Quem dera a vida fosse um parque de diversões. Mas aqui não tem pirraça que faça mudar o curso natural das coisas, não há maquinista que se sensibilize com meus singelos apelos.

Aí a gente acorda, come, toma banho, trabalha, estuda, toma banho, come, dorme e no dia seguinte faz tudo de novo e depois e depois. Tudo isso sem sequer parar para pensar no sentido de cada ação. Nesse intervalo, a gente ri, chora, se sente feliz, triste, animado, frustrado, excitado, angustiado, eufórico, indisposto. Vazio de tudo, cheio de nada, vazio de nada, cheio de tudo.

De repente, um sorriso muda tudo, um beijo, um olhar de cumplicidade, um pôr-do-sol, uma palavra, uma noite bem dormida, uma boa notícia, um orgasmo. Um único gesto traz de volta o sentido de tudo e outro, lá na frente, rouba o sentido das coisas novamente. Um acontecimento ou um não acontecimento. Gangorra acima, gangorra abaixo. Sobe e desce. Vai e volta. Perde e ganha. Cai e levanta. Até o fatídico dia em que a gente não levanta mais. Tudo vira pó, açúcar, nuvem. Lembrança e saudade pra quem fica aqui, de pé.

Vida, essa sucessão de batalhas físicas e psicológicas das quais enfrentamos sem compreendermos nem a metade. Esse mistério que eu nunca vou conseguir desvendar, mas não sem protestar por uma pausa, uma descida do balanço, um tempo da gangorra, um bocado de dignidade e algumas porções (mesmo que venham em pequenos frascos) de qualquer coisa parecida com equilíbrio.

Ah… e o sentido? Bom, acho que só tem um: pra frente.

Roberta Simoni

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Sobre expectativa de vida, miojo e medo de dentista

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Minha vida não é mais a mesma desde o último domingo, quando, durante uma trilha no alto da Serra, eu caminhava feliz e faceira, admirando as árvores, sentindo o cheiro da vegetação, curtindo o clima ameno de outono, acabei me empolgando com essa coisa toda de contato com a natureza e comecei a cantarolar umas músicas (quase a Chapeuzinho Vermelho, só que não), entre elas, um clássico do Cazuza me veio à cabeça e eu, inspiradíssima, tratei de cantar para o meu namorado, que seguia comigo na trilha:

“(…) Você tem exatamente três mil horas pra parar de me beijar. Hum… meu bem, você tem tudo, tudo pra me conquistar…”

Retribuindo minha singela declaração de amor, ele responde:

“Quero viver um milhão de horas com você…”

Silêncio na trilha.

Confuso com aquele silêncio repentino, ele me pergunta se disse alguma coisa errada e eu, me sentindo ligeiramente rejeitada, respondo: “só um milhão de horas, é???”

“Mas, Beta, um milhão de horas é mais do que uma vida inteira. Isso dá mais de 100 anos. A gente vive, em média, umas 600 mil horas.”

Oi? Momento Maysa: “Meu muuuuuundo caiu!

Perplexa e chocada com essa nova perspectiva de contagem do tempo, passei o resto da trilha cheia de questionamentos profundos e filosóficos sobre a efemeridade da vida, o tempo que me resta e blá blá blá. Questionamentos esses que eu trouxe para casa, para cama e agora para o blog.

(Pausa para duas informações relevantes e esclarecedoras: 1- só é capaz de se chocar com tal perspectiva quem, assim como eu, não tem a m-e-n-o-r noção de matemática lógica e não é capaz de fazer pequenos cálculos mentalmente, o que dirá lidar com números de maior escala. 2- Ficar de recuperação nas disciplinas de ciências exatas foi algo recorrente na minha vida e isso, certamente, deve significar alguma coisa.)

Pelos meus cálculos (mentira, os cálculos são desse site aqui) eu vivi até agora 252.408 horas. Se a expectativa de vida de um ser humano é de 600.000 horas, isso significa que eu já gastei quase a metade do meu cartucho. E, com sorte – se nenhum raio cair na minha cabeça ou qualquer tragédia de outra natureza não me atingir até lá – me restam, em média, umas 340.000 horas de vida.

Só eu acho muito mais assustador encarar o tempo por esse prisma?

Quantas horas eu já não devo ter perdido entediada? Quantas vezes eu já fiquei contando os segundos para o dia acabar? Quantos dias eu já passei na companhia da Laura (minha habitual depressão)? Quanto tempo eu já gastei (e ainda vou gastar) me alienando diante de uma tela (de televisão ou computador)?

De repente, cada minuto desperdiçado começou a parecer uma falta gravíssima, quase uma ofensa.

Em contrapartida, numa conversa que tive hoje com a Gabs sobre “a vida, o universo e tudo mais”, ela me alertou para a existência de um artigo de engenharia genética, que diz que num futuro próximo, talvez seja possível viver 800 anos. Cruzes! Pra quê tanto? Dispenso.

Enquanto isso, a água do miojo fervia e eu, à beira do fogão, continuei tentando fazer contas: se já tem quase 10 anos que eu moro sozinha e nessa década de vida eu já devo ter ingerido muito mais miojos do que meu estômago supõe, imagina isso multiplicado por 80?

Ah não… não quero passar 800 anos comendo macarrão instantâneo, não!

A verdade é que imaginar que a vida pode ser mais longa do que o previsto me assusta bem mais do que ter a noção de que falta “pouco” para acabar.

Ainda mais aterrorizante do que passar centenas de anos vivendo de miojo foi pensar em quantas vezes seria preciso ir ao dentista nesse período. Nas últimas semanas eu venho lidando com o pavor de encarar o dentista para extrair um siso que vem me tirando noites e noites de sono (se houverem dentistas lendo isso agora, me perdoem, não é nada pessoal, eu só tenho muito, muito medo de vocês. E de sentar na cadeira do consultório de vocês. E do barulhinho que fazem essas ferramentas de tortura que vocês usam na boca da gente). Horror é a palavra. Horror!

Conclusão: diante de um medo tão paralisador (e injustificável, eu sei), é capaz de eu ter uma crise de pânico até amanhã, quando a cirurgia no “torturador” está marcada. Também é provável que a minha gastrite piore consideravelmente se eu continuar me alimentando mal desse jeito, com a velha desculpa do excesso de trabalho não me permitir ter uma alimentação saudável.

Sendo assim, se eu chegar aos 30 já tô no lucro, né não? 🙂

Dramática? Eu???

Roberta Simoni

Dois pra lá. Dois pra cá.

By Vanessa Paxton

“Eu nunca mais vou amar de novo” tem o mesmo efeito que “eu nunca mais vou beber”. A gente bebe e fica de ressaca da mesma forma que ama e quebra a cara de novo, arrependido por ter quebrado a cara e a promessa feita da última vez, sob os efeitos causados por ambas as drogas.

Eu fui ao inferno e voltei. Encontrei Euridice de Orfeu no Mundo dos Mortos e não consegui trazê-la de volta à vida. Eu não consegui. Juro que tentei, mas não fui capaz. Nem eu voltei completamente viva de lá. Bem na verdade eu voltei para o lado de cá enfrentando todos os demônios que me seguiram até aqui. E o que eu aprendi com eles foi que o único lado bom da batalha contra a dor é perceber-se vivo, meio capenga das pernas, mas dançando conforme a música. Ou tentando. Dois pra lá. Dois pra cá.

A gente passa cada coisa nessa vida, viu? Se contar ninguém acredita. É por isso que ninguém conta e a gente vem pra cá desavisado e vai vivendo como pode, como consegue ou, como diria minha vó Norma: como Deus quer. Dois pra lá. Dois pra cá. Empurra com a barriga daqui, chuta um balde ou outro dali, chora feito bezerro desmamado numa hora, na outra gargalha feito hiena. Num dia tá bem, no outro tá na afundado na merda. Mas é sempre a dor que nos faz lembrar que estamos vivos, seja lá como for, mas estamos. Ainda estamos.

O trem está passando e eu estou sentada no banco da estação vendo-o partir sem conseguir mover minhas pernas. Aquele ali era o meu trem e eu acabei de perdê-lo. Já é o terceiro que eu perco hoje. “No próximo embarco”, é o que eu sempre penso quando tento sair do lugar, convencendo minhas pernas desobedientes a colaborarem. Levanto finalmente e começo não a andar, mas a dançar a música que está tocando na estação central do meu cérebro. Dois pra lá. Dois pra cá. Pouco me importa o que vão pensar. Foi esse o jeito que, por ora, eu arrumei de caminhar.

Entro no trem. Um moço aparece e me tira para dançar. Digo que não sei dançar e ele responde: “É fácil, é só você me acompanhar!”. Tento, mas, lá pelo décimo pisão no pé do rapaz, desisto. “Desculpa. Essa dança não é para mim, de qualquer forma, obrigada por ter feito parecer que era fácil, eu quase acreditei!”. Ele ruma ao próximo vagão, certamente em busca de uma dançarina mais eficiente. E eu sigo viagem no mesmo vagão, no mesmo ritmo, fazendo a mesma “dancinha da sobrevivência”. Dois pra lá. Dois pra cá. Sem parceiro para me conduzir, sem ter os pés e a leveza das bailarinas, sem o gingado e o rebolado das passistas das escolas de samba e sem a coordenação motora natural a quase todo ser humano.

Mas, persisto. Esse é o meu maior e melhor defeito. Eu persisto.

Dois pra lá. Dois pra cá. 

Roberta Simoni

Diferente, mas igual.

Iguais

Fui abordada por uma moradora de rua que já vi algumas vezes ali pela Glória. Uma mulher negra, alta, que deve beirar seus trinta e poucos anos e que tá sempre falando alto e mexendo com todo mundo que passa por ela na rua. Hoje foi a minha vez:

“Olha, você me parece uma moça bem informada e inteligente, por isso, vou direto ao ponto: sou moradora de rua, mendiga mesmo, e tô com fome, não tenho nada para te oferecer, mas se você tiver algum trocado aí pra me dar...”

Não costumo dar dinheiro a pedintes, quando posso – e quando eles aceitam – pago um lanche na lanchonete mais próxima, mas estava com pressa e tinha uns trocados no bolso. Enquanto contava as moedas para dividir com ela e com a passagem que usaria para pegar o metrô, observei que ela usava uns pedaços de pano que fez de mini-saia e top para se cobrir e brinquei: “gostei do visual”. Ela foi logo se desculpando pela forma como estava vestida. “Não, não… você não tá entendendo, eu realmente gostei da sua roupa, especialmente com o calor que tá fazendo hoje, é de se invejar!” Ela riu e ficou me olhando contar as moedas misturadas com algumas notas de R$ 2,00 amassadas. Expliquei: “sou jornalista”.

Quanto terminei a contagem daquela pequena fortuna que (supostamente) pagaria o almoço dela e a minha passagem de volta para casa, perguntei seu nome. Ela ficou me olhando por um longo tempo e, por fim, disse: “você é diferente”.

“Eu sei, me sinto assim o tempo todo.”

“É, eu também.”

Ficamos nos encarando por segundos quase longos, como dois E.T.s que se reconhecem na multidão, até ela se virar, ir embora e, dois passos a seguir, parar novamente, olhar para trás e, com as moedas numa mão e a outra apoiada na cintura, me encarar mais uma vez, com uma expressão irônica, e dizer: “Afff… sabia que você me fez ficar pensativa?”

“É, você também.”

Sempre penso no que pode ter acontecido na vida de uma pessoa que acabou indo morar nas ruas. E sempre, sempre penso que a vida, no fim das contas, é uma tacada de sorte ou azar. Dependendo de onde se nasce e sendo filho de quem se é, qualquer um pode parar no mesmo lugar que ela. Qualquer um mesmo, com talentos, aptidões, personalidades e sonhos semelhantes, mas chances diferentes. É o que alguns chamam de destino.

E ela ainda começou a conversa dizendo que não tinha nada a me oferecer…

Roberta Simoni

(Des)construção

Imagine que você está vivenciando aqueles instantes de “quase morte” e me diga: no que você acha que pensaria?

Quem já passou por isso e ficou só no quase, sempre volta com alguma história para contar. Há quem diga que viu uma luz, um anjo, Jesus… outros contam que viram o filme de suas vidas passando diante dos seus olhos. Foi mais ou menos assim que aconteceu comigo da primeira vez, quando meu equipamento de mergulho pifou há 22 metros de profundidade e eu fiquei lá, no fundo do mar, sem ar, durante segundos que pareceram horas, assistindo aquele filme sem lógica. Parecia até obra do David Lynch: era bom, mas difícil de acompanhar.

Dessa vez foi diferente… também não vi a luz ou Jesus, mas nem tive a chance de assistir filme surrealista como antes.

Quando você vê seu corpo voando feito um cartoon, não imagina em quantos pedaços ele se partirá ao encontrar o chão novamente, mas torce para que o estrago seja o menor possível. Tudo acontece tão rápido que seu cérebro não consegue acompanhar a velocidade do impacto provocado pela colisão, ele fica flutuando até reencontrar seu corpo e voltar pra ele, te devolvendo os sentidos, o que é bom por um lado, porque significa que sua cabeça não foi atingida, mas é péssimo por outro, porque junto com os sentidos, você recupera a noção de tudo: tempo, espaço, situação e, principalmente, dor.

E aí você se vê atirada no chão, rodeada por curiosos anônimos se perguntando: ela tá viva? quebrou o que? tá sangrando? bateu a cabeça?

90% daquelas pessoas querem saber o que aconteceu com você para chegarem em casa contando sobre o acidente que presenciaram, e – sendo bem otimista com a humanidade – 10% está ali porque realmente quer ajudar de alguma forma.

Um moço apareceu gritando para ninguém mexer em mim e ficou segurando a minha mão até a ambulância chegar. Se é desses anjos que as pessoas se referem, então eu também vi um.

Uma mulher insistia para que eu desse o número de algum parente para ela poder ligar e avisar. E eu insistia em negar. Imaginava meus pais recebendo a notícia, coitados… capaz de eu sobreviver ao acidente e eles morrerem de susto. Nem pensar! Como eu não bati com a cabeça, continuei teimosa como sempre. Só avisaria a alguém caso eu tivesse que ser internada.

Saí de casa para pedalar e, de repente, me vi protagonizando uma cena que sempre me apavorou: atropelamento com direito a platéia lotada. Penso que se, um dia, um público tão interessado quanto aquele que me assistiu agonizar no meio da rua, lotar minhas peças de teatro, eu ficarei muito lisonjeada. Não naquela hora, quando tudo que senti foi medo e vontade de levantar e sair andando normalmente.

Mas não consegui, a pancada foi forte, tive que esperar a ambulância e passar a noite inteira no Miguel Couto em cima de uma maca, tirando chapa até da alma e, à certa altura, assistindo um diálogo insólito entre dois jovens Doutores:

– O que aconteceu com essa moça?

– Atropelamento. Pernas, lombar e costelas atingidas.

– Putz! Logo agora no final do meu plantão!

– É sempre assim… os piores casos chegam quando a gente tá doido pra ir embora.

Me percebendo assustada, enfim, um deles perguntou:

– E aí, moça, tudo bem?

Não contive o sarcasmo:

– Ah, tudo ótimo. Só vim aqui ver o movimento mesmo…

Mais tarde, na sala da radiografia, ainda conseguindo preservar algum senso de humor, apesar da dor, outros dois sujeitos discutiam sobre o que deveriam fazer comigo, reclamando da calça que eu estava vestindo. Resolvi me pronunciar:

– Oi. Eu tô aqui. É só vocês me perguntarem se eu não me importo de vocês abrirem a minha calça. E, não, eu não me importo.

– A senhora não tem um acompanhante?

– Não. Mas eu estou consciente e estou dizendo que tá tudo bem, podem abrir!

– É que o botão e o ziper da calça jeans atrapalham na radiografia…

– Eu entendo e juro que se eu soubesse que me acidentaria ao sair de casa, teria colocado um vestido para facilitar o trabalho de vocês…

Por fim, de volta ao corredor do hospital, depois de 5 longas horas, enquanto eu esperava para receber alta, um bandido algemado e esfaqueado esperava para ser atendido na maca ao lado, um rapaz espancado durante uma briga acabava de chegar desacordado (bem que o plantonista disse…) e o motorista que ultrapassou o sinal vermelho e me atingiu, aparecia se desculpando e perguntando se podia fazer alguma coisa por mim. Deixei que me trouxesse para casa.

Resumo da ópera: nenhuma fratura, uma costela deslocada, uma banda da bunda roxa, um joelho que não quer dobrar, minha lombar que não me deixa dormir, nem sentar ou respirar sem sentir dor há quase uma semana, um corpo inteiro dolorido, revelando regiões que eu sequer sabia que existiam, uma chance de renascer às vésperas do meu aniversário e uma música que não sai da minha cabeça desde então…

Pois. No instante em que fui atingida por um carro, bem na hora do rush, no meio de uma avenida movimentada de uma grande cidade, eu não pensei nas pessoas que amo, no meu cachorro, nas coisas que deixei de fazer e dizer, nos lugares que não tive tempo de conhecer, em Deus, no céu ou no inferno, eu me peguei pensando no Chico cantando: “(…) morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. 

É, eu sou estranha. Quase dissonante até na hora de quase morrer.

Teria sido, no mínimo, frustrante se, além de tudo que não vivi, eu tivesse morrido atrapalhando um monte de gente que ficou presa no trânsito, deixando também de viver um monte de coisa. Além de morta, inconveniente. Francamente…

“(…) E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego.” (Chico Buarque)

Roberta Simoni

Tia Bernadete

Me colocou sentada no banquinho do piano e apertou o play do toca-fitas. Eu tinha o quê? Uns 10, 11 anos…? Por aí. Mas me sentia com 20, 21 quando estava com ela.

Falei orgulhosa para os garotos lá da rua: – não vou brincar com vocês hoje, tenho que estudar francês com tia Bernadete.

“Un, deux, trois, quatre, cinq…”

Passei anos da minha vida dizendo que sabia falar francês quando tudo que eu conseguia balbuciar eram os números 1, 2, 3, 4 e 5, que aprendi durante as noites que deixava de jogar bola e brincar de queimado na rua para ficar na casa de cima com tia Bernadete, escutando a voz da professora na fita cassete mandando ela repetir frases em francês. Lembro bem mais de tia Bernadete rindo do que conseguindo pronunciar qualquer palavra. Toda vez que tentava falar, fazendo um biquinho nada sexy e se sentindo ridícula quando abria a boca, nós duas caíamos na gargalhada.

Talvez ela preferisse a minha companhia porque sabia que uma criança não questionaria a utilidade de aprender a falar francês quando se tem trinta e tantos anos e tanta coisa mais importante para fazer, talvez porque se sentia como uma criança aprendendo a falar ou talvez fosse só porque ela era mesmo imatura. Fato é que me fazia sentir importante toda vez que descia lá em casa para me chamar para ajudá-la com as lições do cursinho.

Nesse período, morávamos no mesmo quintal, minha tia vivia com os pais, meus tios avós. Tia Bernadete era, na verdade, minha prima de segundo grau, mãe das minhas primas de terceiro grau, Raphaela e Cristina. Alguns anos antes, perdemos Cristina, que caiu do telhado tentando resgatar um gato (ou, pelo menos foi o que me contaram e sustentam até hoje: o gato subiu no telhado e…), tínhamos mais ou menos a mesma idade, Cristina e eu, e – dizem – um gênio bem parecido, éramos os moleques de saia da família mas, para o alívio de todos, brincamos poucas vezes juntas e não chegamos a causar grandes danos à humanidade. Morávamos em cidades diferentes e tínhamos pouco contato.

Cristina teve suas córneas transplantadas para outra criança. Hoje existe alguém enxergando esse mundão com os olhos dela e eu torço para que essa pessoa se sinta feliz por isso todos os dias quando acorda. Uma vez tia Bernadete me disse que sonhou que ela e Cristina estavam usando vestidos brancos, sentadas num jardim bonito, comendo o bolo de chocolate que vovó Verinha fazia (e faz divinamente até hoje). Pouco tempo depois, tia Bernadete morreu. Desde então, toda vez que penso nas duas, é desse jeito, contentes, com mãos, bocas e vestidos lambuzados de chocolate. Não poderia ter confeccionado uma imagem mais genuína e divertida delas.

A sala onde tia Bernadete e eu “estudávamos” era um dos meus lugares favoritos no mundo todo, no meu mundo todo de menina que conhecia quase nada além do bairro da Vila Nova. Era uma sala cheia de quadros, com uma mesa de jantar grande, uma cristaleira, um piano que, de vez em quando, tia Wilma me deixava tocar e a família toda aplaudia, me fazendo acreditar que eu estava, de fato, emitindo qualquer som parecido com música.

Aconteceram muitas festas naquela sala, hoje só há poeira e silêncio. E a saudade da menina que sentava no banco giratório do piano, colocava as pernas pro alto e pedia para tia Bernadete fazê-la girar, girar, girar…

Sonhava com ela no princípio, depois os sonhos pararam de acontecer. Da última vez que estivemos juntas – há mais de 16 anos – tia Bernadete já estava muito debilitada e, enquanto os adultos discutiam as medidas que tomariam com o avanço da doença, nós duas assistíamos televisão na cama dela quando, durante uma apresentação da Claudia Ohana num desses programas de auditório, eu gritei: “olha tia, ela tem um monte de cabelo no suvaco!”. Tiveram que me retirar do quarto porque tia Bernadete começou a ter uma crise de riso. E foi essa gargalhada que ela me deixou como última recordação.

Uma vez eu li em algum lugar que uma pessoa só morre de verdade quando ninguém mais lembra dela. Se isso for verdade, eu a forço a viver e não sei até onde isso está certo.

Mas essa não é a história de uma mulher que morreu, é a história da mulher que viveu. Morrer não difere ninguém.

Vovó conta que tia Bernadete era ousada, destemida, inconsequente, intensa, fez muitas escolhas erradas e, até onde eu sei, nunca foi bom exemplo (e não é depois de morta que vai virar). Vai ver foi isso que aproximou a gente…

É claro que ela nunca aprendeu a falar francês. Nem eu. Mas quem se importa? Morrer se divertindo é melhor do que morrer bilingue.

Roberta Simoni

Da ausência de lógica

Quando eu contei para a Renata o que fiz, o comentário que ela teceu a respeito do ocorrido foi o seguinte: “isso merece duas coisas: terapia e um texto no blog.”

Enquanto não começo com a terapia, vira texto, o que não deixa de ser terapêutico. Então, senta que lá vem história…

Fui almoçar em Niterói, na casa da querida Thaty, a quem chamo carinhosamente de sogrinha, pois estamos seriamente desconfiadas que o seu filho Bernardo, de 5 anos de idade, está vivenciando aquela coisa de paixonite infantil pela tia Roberta aqui, uma graça… e uma honra, visto que ele é uma das poucas crianças que considero realmente adorável e que consigo ficar por perto durante muito tempo sem querer fugir do recinto.

Pois bem, depois de pedir o Bê em namoro oficialmente aos pais dele, que fizeram gosto do relacionamento promissor, ao contrário do próprio, que me respondeu com um “vou pensar, tá?” (o que me fez perceber que os homens já começam a apresentar defeitos desde novinhos), e depois de me deleitar com a lasanha divina da Thaty e com a conversa fiada de melhor qualidade, resolvi voltar para casa. Já era noite quando tomei meu ônibus de volta pro Rio.

Eu, criança de quase trinta que sou, basta entrar em qualquer transporte que balance um pouco para cair em sono profundo (sim, uma turbulenciazinha durante um vôo é sonífero!). Eis que uma hora depois acordei num lugar estranho. Custei a entender que eu estava longe de casa. Onde? Na Avenida Brasil, entrando na Linha Vermelha. O ônibus semi-vazio que peguei em Niterói, àquela altura, já estava lotado, e as pessoas não tinham uma aparência exatamente amigável e eu não me senti segura de pedir uma ajuda, uma informação ou mesmo uma bússola emprestada. O que eu fiz? Coloquei meus fones de volta nos ouvidos, pus minhas musiquinhas para tocar e agi naturalmente, como se eu estivesse onde eu queria estar.

Enquanto o ônibus se afastava cada vez mais da Zona Sul e me levava pra lá da Zona Norte, eu tentava raciocinar. Já eram quase dez da noite e eu estava sozinha, com a minha máquina fotográfica na bolsa. Correr o risco de perder meu equipamento de trabalho não era algo considerável, por isso, decidi que descer do ônibus seria pior do que seguir nele e ver até onde ele me levaria. E ele me levou para Ilha do Governador, no Galeão, o ponto final.

Lá estava eu, em pleno sábado à noite, perambulando num aeroporto, sem nenhuma mala na mão, sem eira, nem beira. Nem chegando, nem partindo pra lugar algum. Só estava lá, por algum acaso, eu estava lá.

Ok. É o que temos pra hoje, pensei. Então tá. Só me restava tentar entender o que me fez chegar até ali, além da minha total distração ao pegar o ônibus errado e dormir feito uma pedra durante trajeto, tinha que ter uma razão maior, uma boa justificativa para aquilo tudo. Sei lá, de repente eu poderia encontrar uma passagem promocional para Bangladesh, ou talvez revisse um amigo de longas datas que andava sumido ou, quem sabe, me depararia com o homem da minha vida???

Nada. Nada. Nada. Nenhum sinal de coisa nenhuma.

A única coisa com a qual me deparei foi com o ônibus para a Zona Sul saindo no instante em que eu cheguei. Corri, mas não deu para alcançá-lo. Mais 40 minutos de espera até o próximo chegar e quase três horas depois da hora que saí de Niterói eu estava em casa, sã e salva. Mais salva do que sã, como consta o relato.

Até agora não descobri o que eu fui fazer num aeroporto do outro lado da cidade em pleno sábado à noite sem ter ido viajar e tendo voltado para casa sem nenhuma história boa pra contar, nem nunca vou saber. Esse é o tipo de resposta que a vida nunca dá pra gente, é quase como ligar para a sua operadora de celular para cancelar um serviço, a ligação “cair” e você ficar esperando que um vendedor de telemarketing retorne a ligação.

Nem ao menos eu dei de cara com a Astrid Fontenelle gravando o programa Chegadas e Partidas para dar o meu relato, no mínimo, inusitado…

Se foi apenas um teste de autocomplacência, dessa vez eu passei com excelência. Se há alguns anos alguém me dissesse que eu cometeria tamanha estupidez e nem sequer esbravejaria ou ficaria furiosa por isso, eu custaria a acreditar. Devo estar ficando mais generosa comigo, ou então já nem me surpreendo mais.

De um jeito ou de outro, fica a impressão de que a vida, às vezes, brinca com a gente, joga pra lá, pra cá, faz como se fôssemos bonecos num teatro de marionetes. Coloca um monte de pontos de interrogação para apimentar a brincadeira e raramente responde às nossas perguntas. Poucas vezes faz algum sentido, mas até que é divertida.

E mesmo sem entender direito, quero continuar vivendo aqui por mais algum tempo, aqui onde está sempre amanhecendo.

Roberta Simoni

Pra ver a banda passar…

Eu, por Amaro Lima

E quando, no meio de um tempestuoso dia de sol, você se pega observando o mundo enquanto deveria estar se abrigando da chuva de problemas que resolveram cair sobre a sua cabeça, você entende que molhar-se pode ser melhor do que correr para comprar um guarda-chuva ou se proteger debaixo da marquise mais próxima.

Tenho tido dias tão insanos quanto eu. Correndo de um lado pro outro, trabalhando feito louca para, no fim do dia, poder riscar mais uma pendência no meu caderno. Às vezes eu consigo. Outras vezes eu como. Há vestígios de páscoa por toda a casa. Mas têm dias em que nem chocolate resolve. Em dias assim, há aqueles que me salvam das frustrações desse “mundo cruel”, mesmo sem saber que são salvadores. E foi enquanto eu esperava a heroína do dia chegar, na saída do metrô, que eu parei – pela primeira vez em dias – pra ver a banda passar.

A banda passou, cantando coisas de amor. Mas ninguém dançou. Ninguém ouviu a banda tocar, todo mundo estava falando ao celular. Mulheres andando apressadas, executivas montadas em seus saltos altos. Homens olhando pra baixo, sisudos de terno e gravata. Todos com ar de cansaço, carregando o peso da existência nas costas. Indo e vindo da rotina, ou do trabalho. Nenhum sorriso detectado. E eu ali, parada, observado a banda passar e, logo atrás, o bando surdo e apático.

E o que fazer com a incômoda verdade de que tantas vezes eu estou marchando com o bando sem ouvir a banca tocar nem vê-la passar?

Eu corro pra chuva e me molho, pra lembrar que não sou feita de matéria impermeável.

Roberta Simoni

… e se atira lá de cima!

“Ah Beta… você é muito mais atirada na vida do que eu. E se recupera muito melhor e mais rápido!”

…Será?

Eu sei que me atiro feito bala de canhão em tudo, só não sei se me recupero melhor e mais rápido quando o tiro sai pela culatra. Sim, porque minha pontaria ainda não é das melhores. E para melhorar, só atirando. Ainda que isso inclua me atirar e, fatalmente ou felizmente, me atingir em cheio.

Mas, sabe? A vida segue… Relutante tantas vezes, fazendo pirraça, querendo ficar onde está, permanecendo estacionada em local proibido só por preguiça de rodar para procurar outra vaga, mas segue… cedo ou tarde segue. No meu caso, cedo, quase sempre, porque maior do que a preguiça de procurar uma vaga é a minha preguiça de ficar parada por muito tempo até ver o reboque chegar e me tirar a força de lá.

Talvez ela tenha razão… talvez eu me recupere mais rápido do que a maioria das pessoas que conheço, talvez pela prática de me atirar, talvez pelo vício da adrenalina, talvez porque eu sempre sobreviva após cada atirada incerta. Mas um dia se morre, talvez não disso, mas se morre… e uma coisa, pra mim, é certa: se a vida sempre há de seguir, quer queira, quer não, prefiro continuar seguindo com ela desse meu jeito atirado a ter que ficar sempre parada vendo-a passar por mim. O movimento é vital.

E é gostoso me balançar daqui de cima! Ainda agora deu vertigem, mas já passou… é que eu estava me movendo rápido demais e fiquei tonta… aí eu parei o balanço e me dei conta de que estava indo mais depressa do que o mundo lá embaixo. Comecei a impulsionar meu corpo devagar para frente e para trás…

O vento não tá batendo agora, tá fazendo carícia no meu rosto e vai assoprar mansinho aqui no meu ouvido quando quiser que eu me atire do balanço e voe de novo, e de novo, e de novo…

Roberta Simoni

Acordo com Deus

Às vezes, antes de dormir, nas minhas viagens mais malucas e distantes, eu me pego pensando: se existe mesmo esse lance de vida após a morte, reencarnação, vidas passadas e tudo mais, será que antes de reencarnarmos, nós fazemos uma espécie de acordo com “Deus”?

E, se há um acordo, todas as partes estão cientes e concordam com todos os termos e condições, obviamente. Logo, se eu fiz um acordo com Deus – ou qualquer outro ser superior, do qual cada um chama e define como bem entende – antes de vir pra cá, eu já sabia por tudo que eu passaria, e eu, provavelmente, tinha algum objetivo, motivo, pretensão e/ou interesse ao fechar esse acordo.

Aí, eu fico imaginando o papo que eu tive com Deus antes de chegar aqui…

“Deus, sabe o que é? Cansei do paraíso. Não acontece nada de interessante por aqui, eu não tenho mais inspiração para escrever, além do mais, preciso ter do que reclamar, questionar e duvidar. Você me conhece…

Estive pensando em não nascer num berço de ouro desta vez, e ter que suar muito para conseguir tudo que eu quiser. Em compensação quero nascer numa família boa e iluminada, se for possível, é claro. Quero me apaixonar muitas vezes, amar algumas outras, e viver tudo intensamente, como se fosse a primeira e a última vez sempre.

Quero experimentar todos os prazeres e as aflições humanas. Quero me aprofundar na vida, quero buscar respostas para tudo, até porque eu não me lembrarei de nada mesmo, e sei que terei que reaprender todas as coisas. E apesar de eu achar isso tudo uma covardia e de ficar cansada só de pensar em começar tudo de novo, eu concordo que haja fundamento nesse Seu método, e confiarei no sexto sentido que eu terei, porque espero poder levar comigo alguma experiência das outras vidas, mesmo que inconsciente. Você se importa?

Também não quero ter uma vida pacata. Quero viajar muito, morar em muitos lugares, me aventurar, me arriscar, ter que fazer muitas escolhas difíceis (onde eu estava com a cabeça???). Não quero ser rica, quero aprender a viver com pouco (hãããã???), porque não quero ter apego a nada material. Não me importo de ter que trabalhar muito, mesmo ganhando pouco (eu não conhecia a moeda Real naquela época!), por isso, quero me profissionalizar em algo que me dê muito prazer e não – necessariamente – muito dinheiro (isso explica o meu diploma de jornalista!).

Permita que eu atraia não só pessoas lúcidas e boas, preciso atrair malucos e pessoas de índole duvidosa também, para conseguir fazer uma análise mais aprofundada da mente humana (que tipo de psicanalista eu pensava que era? A versão feminina de Freud???).

E, por fim, me mande para um país subdesenvolvido e pobre, porém rico de belezas naturais. De clima tropical, aonde o povo seja festeiro e cheio de esperanças, apesar de todos os problemas sociais. Eu preciso aprender a ser otimista com essa gente, e espero poder levar alguma coisa boa a eles também.

Se não for pedir muito, permita que eu cresça perto da praia e que eu tenha contato com o mar constantemente. E se, por ventura, eu começar a reclamar muito da vida, me mande para algum lugar cinza, longe do cheiro da maresia (agora sei o que vim fazer em São Paulo!), para eu me lembrar do quanto eu era feliz e não sabia. Isso servirá para eu dar valor a todas as coisas, e pensar algumas vezes antes de reclamar da vida, outra vez.

Só peço que, enquanto eu estiver por lá, eu seja lembrada constantemente  da efemeridade da vida, para que eu contemple emocionada cada pôr-do-sol, cada flor que nasce no meu jardim, cada folha que cai das árvores, cada abraço sincero, cada sorriso gratuito, cada beijo apaixonado, cada palavra verdadeira, cada gesto humanitário, cada atitude benfeitora, cada suspiro e cada sopro de vida. Ou seja, cada vez que eu Te reconhecer nessa minha jornada.”

Depois, Deus e eu assinamos o contrato (do qual eu desconheço o prazo) e cá estou eu, experimentando, sentindo e saboreando a vida outra vez, enquanto o acordo está vigente.

Roberta Simoni