Você tá precisando transar

Ok

Numa bela manhã, mandei uma mensagem para o WhatsApp da minha mãe contando que eu havia marcado um horário pra ir naquela consulta médica que ela estava insistindo tanto pra eu marcar, também tinha conseguido agendar a renovação da minha habilitação e, de quebra, dado entrada numa documentação burocrática que eu andava postergando. Era uma manhã atípica. Eu estava orgulhosíssima de mim, mostrando meu feito pra minha mãe como eu fazia quando era criança, na época que eu estava aprendendo a nadar. Cada vez que pulava na piscina sem as boias nos braços, eu gritava: “Olha, mãe!”, ela parava o que estivesse fazendo para me olhar. Quando eu voltava à superfície, procurava o olhar de aprovação dela, que sempre vinha seguido de alguma exclamação do tipo “Muito bem!” ou “Que linda! Já sabe nadar sozinha!”

Perceba que, com meus trinta anos, continuo agindo da mesma maneira. Os anos vão passar e, enquanto eu continuar tendo a minha mãe, muito provavelmente vou continuar me sentindo no direito de agir como filha. E ela vai continuar gostando de agir como mãe. Pra minha sorte ela é incansavelmente maternal.

A única diferença é que, com o passar dos anos, minha mãe virou minha amiga. A melhor. Dessas que apoiam na hora que tem que apoiar e sacaneiam (no melhor sentido) quando o momento é apropriado.

Assim que mandei a mensagem pra ela contando todas as coisas que eu tinha conseguido agilizar naquela manhã, ela respondeu: “Não tô acreditando. Aposto que você andou transando!”

O que dizer? Eu tinha mesmo feito sexo na madrugada que antecedeu aquela manhã gloriosa de resoluções. Depois que consegui parar de gargalhar com a constatação precisa dela, perguntei: “Como foi que você adivinhou?”

Ela não precisou responder o óbvio. Minha disposição para resolver todas aquelas coisas chatíssimas só podia mesmo ter a ver com uma energia vital, que ela prontamente deduziu como energia sexual, embora eu não tivesse ligado os pontos até que ela começasse a me sacanear. Agora, toda vez que uma de nós fica mal-humorada, dizemos uma pra outra: “Você tá precisando transar”. É o nosso código para “você tá muito chata e precisa fazer alguma coisa prazerosa pra mudar seu humor”. Pulamos a parte de tentar encontrar alguma atividade prazerosa e sugerimos logo sexo. Obviamente existem outras formas de sentir prazer e de espantar o mau humor, mas a primeira que nosso cérebro processa é a que encabeça a lista de “atividades prazerosas”.

Num mundo perfeito, sair por aí sugerindo que as pessoas façam sexo não seria considerado ofensa e sim um excelente conselho. Mas o mundo infelizmente não se resume a relações tão espontâneas assim.

Na semana passada o jornalista Ricardo Boechat mandou o pastor Silas Malafaia procurar uma rola. Muita gente considerou a frase extremamente grosseira e ofensiva. Eu entendi como um conselho valiosíssimo, que se aplica ao malfadado Malafaia e à grande parte da humanidade. Em outras palavras, o que ele estava dizendo era: vá procurar uma atividade prazerosa – como, por exemplo, se divertir com uma rola – no lugar de ficar disseminando o mal e se preocupando com o cu alheio.

Que tal lançarmos a campanha “Você tá precisando transar”? Podemos começar dizendo isso para aqueles amigos com quem temos mais intimidade, até que o conselho se estenda a quem somos obrigados a conviver e que está precisando transar urgentemente e se ocupar em alcançar e proporcionar orgasmos, seja para se reconciliar com o lado prazeroso da vida ou para melhorar o humor e a disposição e, com isso, tornar-se mais funcional e menos intragável.

Isso não significa que o aconselhado vá aceitar a sugestão, mas talvez faça com que perceba que está desperdiçando energias poderosas em coisas, lugares e pessoas erradas. A lógica é simples: pessoas sexualmente ativas são mais felizes e pessoas felizes enchem menos o saco dos outros.

Por um mundo onde as pessoas façam mais sexo e menos mimimi.

Roberta Simoni

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É você, a razão e o porquê.

Pense num amor muito, muito, mas muito grande. Pensou? Então… é maior.

É assim o nosso amor. Quando eu penso que já não tem mais pra onde crescer, ele se estica, e, de tão elástico, vem aqui todas as noites, me beijar antes de dormir.

Eu fui embora pra tão longe, parti tantas vezes e todas as vezes te deixei com o coração partido, me jogando beijos do portão, sem conseguir disfarçar o aperto no coração. Me pediu pra eu ligar quando chegasse e pra eu não demorar a voltar, mas eu sempre demoro demais. Me abraçou forte, me deu um beijo demorado na testa e me fez prometer que eu me cuidaria. Prometi, mas é claro que não acreditou. Ninguém me conhece tão bem quanto você a ponto de saber que eu não sei me cuidar direito.

Me acordou cantando Bossa Nova, abriu a cortina para o sol me ver e deixou a porta aberta para o cheiro do feijão entrar. Ahhhh, você preparou a minha comida favorita, não foi? Fez o meu suco de maracujá com bastante açúcar, abasteceu a geladeira com caixinhas de todynho e botou o pote de nutella na mesa do lanche. Sentou à minha frente, ficou me olhando comer com prazer e me perguntou como tem sido os meus dias. Falei sem parar. Contei do trabalho, dos meus novos projetos, dos amigos que tenho feito pelo caminho, da bebedeira do último sábado, da ressaca terrível no domingo e da estupidez que cometi na semana passada. Esperei que me reprovasse, mas só concordou que fui tola outra vez e manteve a mesma ternura no olhar.

Filha de Vera, a primavera chegou junto com você que, há cinquenta anos, torna o mundo mais florido, minha bela margarida despedaçada, de infância ferida que teve tantas pétalas perdidas. Cresceu sem ser regada, teve sede, murchou tantas vezes, pensou que fosse secar para sempre, mas se viu girassol quando, na primavera seguinte, nasceu seu primeiro botão de rosa, e depois, quando no inverno, brotou sua segunda flor, tão fora de época, mas recebida com o mesmo amor. Uma rosa, a outra vermelha. Regou suas flores como nenhuma outra jardineira, se emocionou ao vê-las desabrocharem tão saudáveis no seu jardim, mas teve que deixá-las florirem o jardim da vida, onde se despedaçaram tantas vezes quantas voltaram para serem cuidadas por ti.

Foi com você, minha linda Elizabeth, mulher com nome de rainha e fibra de guerreira, que eu aprendi a amar, que eu aprendi a ser gente. Foi você o meu primeiro amor. É você o meu grande amor. E sempre será seu o meu amor maior, nessa e em quantas vidas nos forem dadas.

Cresci achando que eu tinha a melhor mãe do mundo, hoje eu sei um bocadinho mais sobre o mundo e descobri que tenho muito mais do que isso. Sou a sortuda que foi gerada pela mais fantástica das mulheres, das covinhas mais lindas que já vi na vida. Tenho a melhor parceira e amiga, o cafuné mais gostoso que existe, o melhor purê de aipim do planeta, o colo mais aconchegante, o cheirinho incomparável de mãe, o amor que não se mede, que não se esgota, que vai além.

Já cheguei ao mundo vivenciando o encontro mais importante da minha vida: o de nós duas. Você me alimenta com os sentimentos mais genuínos.

Ai de mim se não fosse você, Dona Beth… ai de mim!

Mãe, veja bem, é você a razão e o porquê.

Roberta Simoni

Todo enfermo fica carente

Você não mora com seus pais, nem com parentes, amigos ou filhos, também não mora com seu(a) namorado(a). Não gosta de dar satisfações da sua vida, adora não ter hora pra voltar. Sente uma alegria enorme em encontrar suas coisas do jeito que as deixou antes de sair, ainda que a sua casa esteja uma zona.

Às vezes sente falta de chegar em casa e ter alguém que pergunte como foi o seu dia, sente uma pontada de inveja quando vem aquele cheirinho de comida caseira da casa ao lado, mas rapidamente supera aquele aroma quando pensa que não precisa fazer comida se não quiser, que não tem obrigação de limpar a casa hoje, nem amanhã, nem depois. E que a louça suja pode esperar a manhã seguinte…

Você bebe água da geladeira no gargalo e chega a sentir um prazer secreto ao pensar em como sua mãe reclamaria se presenciasse essa cena. Você escuta música, liga a televisão e mexe no computador, tudo ao mesmo tempo, sem que ninguém reclame. Começa a desenvolver o hábito estranho de falar sozinho, com as paredes ou com as suas coisas e acha graça da sua sandice, até que…

… Você fica doente !!!

E agora? Não tem ninguém para ir até a farmácia comprar um remédio para você, ninguém para tirar a sua temperatura, nem para fazer um suco de laranja e te obrigar a tomar, alegando que você precisa de Vitamina C.

Você gostaria de ter coragem de bater à porta da casa vizinha e perguntar se pode se sentar à mesa com eles. Odeia com todas as forças o cheiro de feijão fresquinho que vem de lá. Chega a fantasiar sua mãe na sua cozinha preparando a sua comidinha favorita e te dizendo que você não pode ficar sem comer, filhinho(a)!

Deseja veementemente encontrar aquela cartelinha de novalgina que está perdida no meio da bagunça que é a sua vida. Se sente a criatura mais carente do mundo. Não sabe se espirra ou se chora, acaba fazendo os dois, e fica com o nariz completamente entupido.

Começa a entender, finalmente, que está só. Você mora sozinho, queridinho(a)! Não tem ninguém para se comover com a sua fraqueza, para se preocupar com as suas tosses excessivas, para te mandar procurar um médico ou para te carregar à força para o hospital.

Calma! Você só está gripado(a)… mas, eu sei, você tem a impressão de que vai cair em depressão profunda a qualquer momento. Mas aí, você reage. Se arrasta até o banheiro como um “sobrevivente gripal” e toma banho encostado na parede do box, porque não têm forças para ficar de pé. Se sente melhor, mas não ao ponto de conseguir pentear os cabelos.

E falando em cabelos, você se olha no espelho e vê que os seus estão todos embaraçados e que você está com uma aparência horrível de… doente. Mas tudo o que você queria agora nem era estar bonito(a), tampouco te preocupam suas olheiras, pois só o que você precisa é de alguém que esteja pouco se importando com a sua aparência, desde que não se importe em lhe fazer um cafuné.

Sim, isso é um apelo !!! 🙂

Manhêêêêê… eu sei que você lê o meu blog !!!

Roberta Simoni

Hoje eu acordei assim, meio Bossa Nova, sabe?

Música

Eu adoro ouvir a minha mãe cantarolando, não importa a canção, nem o tom. É a voz dela e o efeito que ela causa em mim.

Nessas manhãs em que eu acordo com receio de abrir os olhos e encarar as horas que se seguirão pelo resto do dia, ouví-la cantar tem sido como ouvir o assobio alegre dos pássaros na minha janela numa manhã ensolarada, ainda que a cortina esteja fechada e o quarto esteja escuro e melancólico, cheio de desânimo e preguiça, feixes de luz conseguem penetrar através da cortina, enquanto os pássaros saúdam o dia, fazendo o meu medo de despertar se dissipar no meio da melodia…

Nesses dias poucas coisas têm feito sentido, mas nenhuma delas têm pouco sentido. Meus sentidos estão todos apurados, os anseios tão inflamados e as feridas tão expostas que tentar camuflagem é puro desperdício de energia, e ludibriar a dor com palavras bonitas e consoladoras não tem nada de poético. Chega a ser patético.

E eu penso na menina de outrora e acho graça porque lembro que sempre fui mesmo muito melancólica, como as manhãs de agora.

Nessas manhãs eu acordo assim, meio “Bossa Nova”, sabe? Ouvindo Bebel Gilberto precisando dizer que te ama, vendo o barquinho do Bôscoli deslizando no azul do mar, a garota desfilando na praia de Ipanema do Tom e do Vinícius e fazendo coro com eles, cantando “chega de saudade”…

Contando vil metal como os nossos pais e os da Elis, lembrando de coisas nossas do Noel Rosa e das tardes bucólicas e preguiçosas em Itapuã com Toquinho e Vinícius… e aí dá vontade de pegar aquela velha viola e tocar Bossa Nova, com o perdão dos desafinados de Tom e João Gilberto, para acompanhar as cantorias na voz doce da minha mãe.

Isso, é claro, se eu soubesse tocar violão…

Mãe é mãe

Eu adoro as mães, são seres mágicos. Começando pela minha… mas quando eu paro para falar sobre essa criatura, haja adjetivos, lenços e babadores, me emociono e babo muito, muito mesmo. Sou filha coruja assumida.

Há alguns dias tentei consolar uma amiga, que é mãe de uma menininha linda, de pouco mais de 2 anos de vida. Ela estava com o coração partido em pedacinhos, pois voltaria a trabalhar e precisaria colocar a pequena na escolinha. E quem disse que ela conseguia? Teve pena de entregar a sua cria para o mundo, medo de deixá-la sem a proteção – incomparável – de mãe, e pânico de ficar sem a filhota por perto.

Apesar de ainda não ser mãe, eu posso calcular a aflição dela. Aliás, acredito muito nessa coisa toda de instinto materno, e tenho certeza que o tenho, ainda que eu não tenha experimentado “padecer no paraíso” como todas as mães. Por outro lado, canso de ver mulheres que colocam vários filhos no mundo e, ainda assim, o famoso instinto materno passa bem longe delas. Não adianta, esse não é o tipo de coisa que se aprende, ou você tem, ou não tem.

Tentei convencer a minha amiga de que seria bom para a menina, mostrei os pontos positivos, expliquei que a filha dela não era tão nova assim para começar a estudar, que ela não estava fazendo covardia nenhuma e que  não precisava se sentir tão mal assim. Eu sabia que isso não aliviaria a sua dor, mas já que era uma coisa inevitável, naquele momento, seria bom ajudá-la a enxergar o lado positivo.

No primeiro dia de aula, depois de se emocionar ao ver sua pequena de uniforme e tirar muitas fotos para registrar, ela e o marido a levaram à escola pela primeira vez. Ao chegar lá, ela sequer choramingou, e se despediu dos pais alegremente – “Tchau mamãe, tchau papai !!!”, no entanto, quem ficou aos prantos foi a minha amiga.

Eu não conheço, nem nunca ouvi falar num amor maior e mais sincero que o materno. Conheço, inclusive, mulheres que não são as melhores esposas, as melhores amigas, as melhores profissionais, as melhores filhas, mas, sem dúvidas, são as melhores mães do mundo para seus filhos.

Quando a mulher se torna mãe, ela nunca mais volta a ser a mesma. Pode até ser que os seios caiam, que o corpo dela mude,  e a sua vida provavelmente nunca mais será  como antes. Mas, certamente, ela fica mais iluminada e se torna uma pessoa melhor. Ela pode ser chata ou legal, antiquada ou moderninha, bonita ou feia, pode até exagerar na preocupação e nas reclamações, pode não acertar na educação sempre, e tem até direito a ser um pouquinho possessiva e ciumenta de vez em quando, mas vai ser sempre muito especial, afinal, tem bênção maior do que dar a vida a outro ser?

Em homenagem ao post maternal de hoje, escolhi um vídeo que mostra um pouquinho da série Mothern, exibido no GNT – que eu acho simplesmente o máximo – para nós nos deleitarmos e as mães se identificarem.

Roberta Simoni