Rock in Rio, EU FUI… fotografar!

"El bigodón" em ação! Fotografia: Bruno de Lima

As vésperas de começar o Rock in Rio eu seria mais uma na multidão. Na multidão que assistiu aos shows no conforto do sofá de casa. Mas um telefonema me fez abandonar o meu sofá e a minha casa durante todos os dias do evento para praticamente viver na Cidade do Rock.

Quando recebi o convite para trabalhar como fotógrafa nesse que seria o maior espetáculo musical dos últimos tempos, a única coisa que minha boca foi capaz de pronunciar foi um sonoro SIM. É claro! Aceitei de pronto, mesmo sem saber muito bem o que eu faria ao chegar lá. O medo do desconhecido e a apreensão do desafio só viriam a pesar mais tarde, quando a ficha começasse a cair.

Já alojada na casa que apelidei de “Toca dos Fotógrafos”, ainda sem conhecer praticamente nenhum daqueles que seriam meus colegas de trabalho nos dias que se seguiriam, quando um deles vinha me perguntar qual seria a minha função na equipe e eu respondia que tinha ficado responsável pelas fotos do backstage, diante da frase que sempre vinha acompanhada da palavra “sortuda”, eu quase me desculpava pelo aparente “privilégio”.

Privilégio esse que eu tinha pouca ou nenhuma noção. Ok, eu teria acesso aos camarins de artistas que as pessoas estavam pagando alguns dinheiros para poderem ver de longe ou de menos longe, no caso dos mais fanáticos, grudados às grades que separavam o público do palco. Nada contra quem curte, mas eu não sou adepta a esse tipo de calor humano. Não desse. Não mesmo. Enfim. O fato é que esse tipo de “vantagem” nunca me envaideceu, dessa vez não seria diferente. Eu vislumbrava mesmo era a oportunidade de enriquecer o meu portfólio fotográfico (e de pagar as contas do mês).  O que eu não previa era que esse trabalho me proporcionaria bem mais do que isso.

Só fiquei sabendo que cobriria as ações sociais de iniciativa da organização do evento quando cheguei lá. O trabalho era basicamente fotografar os artistas autografando guitarras que, no fim de cada dia de shows eram rifadas. A grana arrecadada com as rifas seria revertida em doações de novos instrumentos musicais para ONGs. Um projeto muito bacana…

E que parece fácil, né? Mas é difícil e tenso. E exaustivo. Horas e mais horas em pé nas portas dos camarins à espera das assinaturas nos instrumentos para, no fim, alguns músicos simplesmente se negarem a fazer, como no caso do Elton John, a quem eu tive o desprazer de fotografar, tamanha antipatia.

Não foi só um trabalho fotográfico que, por si só, diante da importância do evento, é de uma responsabilidade muito grande, foi um exercício constante de paciência, persistência e resistência física e emocional.

Trabalhei todos os dias com a Tita, produtora responsável por conseguir as assinaturas das guitarras que eu fotografava e que, por sinal, foi a melhor parceira que eu poderia desejar. A empatia foi instantânea e tenho certeza que isso colaborou muito para o sucesso do trabalho. “Lá vem as incansáveis moças das guitarras outra vez…”, era o que escutávamos todos os dias ao chegarmos no backstage. Mas, apesar da fama de incansáveis, nosso cansaço era notório, estava estampado na nossa cara, embora sempre viesse acompanhada de sorrisos cheios de dentes. Afinal, se rindo já era difícil…

A sensação esquisita que me acompanhava durante todo o tempo era a de parecer ser mais uma fã e não parte funcional daquilo tudo. Toda vez que tínhamos que insistir uma, duas, dez vezes para conseguir um maldito autógrafo, eu, com a colaboração da minha imaginação fértil, visualizava a seguinte cena dentro do “Fantástico Mundo de Beta”: “Oi, Seu Elton, sabe o que é? Eu até acho que o senhor canta direitinho, sabe tocar piano legal, coisa e tal, mas olha só, eu nem sou sua fã, sabe? Eu nunca estaria aqui pedindo um autógrafo ou uma foto por vontade própria, isso é só o meu trabalho, entende? Eu podia estar roubando, matando… mas eu to só fotografando.”

Obviamente isso nunca aconteceu, em parte porque o meu inglês é tão facilmente compreendido quanto os discursos do meu afilhado de 7 meses de idade, confesso.

A gente tinha que lidar com o ego inflado – e inflamado quase sempre – de muita gente grande. Grandes não porque fossem pessoas maiores ou melhores, mas porque foram colocadas num pedestal para serem veneradas, merecidamente ou não, de forma totalmente equivocada.

Mas eu também tive surpresas agradáveis no caminho. Grande parte dos artistas abraçou a idéia. Quase todos os cantores e bandas nacionais topavam autografar e posar para a foto sem criarem grandes dificuldades. Isso me permitia sair de trás do palco algumas vezes e ir pro fosso (espaço reservado para os fotógrafos na frente do palco) e brincar de fotógrafa dos shows, e nessa brincadeira, eu aprendi muito, fiz boas fotos enquanto cantava junto e, algumas vezes, me emocionava com o público também. E o melhor: longe da muvuca. É verdade, eu estava onde muita gente gostaria de estar. Mas a emoção não era pelo tal privilégio em si, mas pela noção da oportunidade única, da chance de aprender e por saber que um dia eu me lembraria desses momentos e pensaria: “eu era feliz e sabia!”. Estar feliz é ótimo, mas melhor ainda é ter consciência da felicidade.

No mais, as situações cômicas não foram poucas. E as gafes que eu cometi, é claro, renderiam uma crônica exclusiva. Muita gente me mataria se soubesse que eu estava dentro do camarim do Maroon 5 e que, apesar de gostar do som que os moços fazem, não fazia ideia de como eram as suas carinhas e por isso mesmo custei a me dar conta que era o próprio Adam Levine quem estava ali, ensaiando, sentado à minha frente. Sim, Deus não é justo e não dá asas a cobra, é verdade.

Essa situação, inclusive, se repetiu com diversas bandas. Eu sabia que tinha que fotografar, mas não tinha a mínima noção de como eram os rostos que eu fotografaria. Não foi uma nem duas vezes que o Santo Google me salvou.

Tem muito sujeito que daria a vida para estar no meu lugar para ver a Kate Parry trocando de roupa, e muita fã que gostaria de ganhar um beijo (no rosto, calma!) de um dos integrantes do Maná (banda que eu desconhecia até o RiR e sigo desconhecendo…), que eu nunca tinha visto mais magro, de calça mais justa e cabelo mais espetado e que veio do nada, me abraçar, ao passo que eu tentei ser simpática e me comunicar com um portunhol misturado com inglês desastroso. Além de outros micos impublicáveis e que, felizmente, ficaram restritos a quem estava lá.

Isso, é claro, sem falar da tietagem que não fui capaz de evitar em dois momentos: ao encontrar com o Marcelo Bonfá e o Dado Villa-Lobos do Legião Urbana e o mestre das composições, Zeca Baleiro. Tietei mesmo, mas foi discretamente e com dignidade, juro! Não contem lá em casa.

Verdade que muitas bandas só ganharam rosto pra mim depois do RiR e com certeza algumas delas vão entrar para a minha play list. Outras, no entanto, vão continuar lá onde estão, fazendo sucesso na Bahia e entre os micareteiros de plantão…

De bom ficou a ótima impressão que tive da Joss Stone, da Janelle Monae e da Esperanza Spalding, de talento proporcional à doçura e lindeza; a companhia sempre divertida dos rapazes da Orquestra Sinfônica Brasileira no backstage, os shows maravilhosos que consegui assistir do Stivie Wonder e do Metallica com os queridos parceiros de fotografia Christian e Bruno e com nossa mascote assistente metaleira, Rebecca, que foi um achado na equipe; o carinho pela Tita que, com certeza, vai para além daqui. O show do Coldplay que deu gosto de fotografar e assistir de perto e que me rendeu fotos que circularam por algumas mídias digitais.

Além disso, a alegria e o orgulho de ter sido uma das fotógrafas oficiais do Rock in Rio, a gratidão pela indicação do Rodrigo e recomendação do Christian, o voto de confiança do Rogério; a oportunidade de aprender com tanta gente fera como o Terranova e o BDL; a amizade que se estreitou com toda a equipe que dormia pouco e permanecia muito tempo acordada junto, e por fim, a parceira do Bruno que me socorreu com equipamento e suporte técnico na hora do sufoco e do Patrick que me pegou pela mão e me carregou para o posto médico quando, nos últimos instantes, durante o show dos Guns N’Roses meu corpo começou a dar sinais de que iria pifar a qualquer momento, depois de tantos dias sem comer e sem dormir quase nada, como todo o resto da equipe, naquela jornada louca de quase 20 horas de trabalho por dia.

Ainda teve a Thelminha, minha parceira de quarto e cantora oficial do hino do RiR, o Daniel que, “pô, meu”, falava pouco, mas ria muito. E um salve pro Paulo, o mais guerreiro de todos nós, que se machucou enquanto fazia as fotos, foi proibido pelos médicos de continuar trabalhando, mas ficou ralando até o final, firme, forte e com um saco de gelo nas costas.

Dizem que a vida é feita das experiências que vivemos, mas eu acho que ela é feita da maneira como vivemos cada experiência. E o que fazemos com elas depois. As minhas, por exemplo, têm validade estendida para além desse episódio. O Rock in Rio não me deu outra escolha senão vivenciá-lo da maneira que mais gosto: intensamente.

E todas as vezes que a exaustão era maior do que a euforia de estar ali e eu sentia uma vontade enorme de fugir pra casa, eu me pegava rindo, pensando no quanto o roteirista da minha vida é irônico e dotado de senso de humor. Em pensar que há 10 anos, eu fui pega tentando fugir de casa para ir ao Rock in Rio e fiquei lá, inconsolável, assistindo os shows de casa.

Roberta Simoni

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Eu reinvento-me. Tu reinventa-se?

Acordei inventando cansaço. Tudo psicológico. Só porque eu passei a noite em claro? Só porque o moço que vende churrasquinho de gato na esquina resolveu, de uns tempos pra cá, atrair (espantar?) a clientela com o adorável forró da banda Calcinha Preta? Imagina… Só porque ele coloca o som nas últimas alturas até o dia amanhecer? Bobagem… Só porque, quando eu estava começando a desconfiar que vivo na terra-de-ninguém, inconformada por ser alguém impedida de dormir pelos gemidos (sim, porque aquilo não é voz, menos ainda melodia!) da vocalista da banda, a polícia chegou, botou a casa em ordem e, quando a viatura virou a esquina, o som ficou ainda mais alto? Frescura minha… olheiras minhas, cansaço meu… dormir? Sonho meu, sonho meu…

Mas, e aí que o dia foi chegando ao fim, e aí que eu ia para casa me acabar de tanto dormir, e aí que quando eu estava pegando a bolsa para ir embora, pintou uma matéria importante para divulgar de última hora, e aí que eu tive que trabalhar até mais tarde. E aí que só de raiva eu decidi que não estava cansada, e aí que eu reinventei o que sobrou do meu dia, inventando que estava super-hiper-mega-ultra disposta a sair, encontrar meus amigos para jogar conversa fora e tomarmos um café, porque apesar de sextas-feiras combinarem bem mais com cerveja, bastaria apenas uma para me fazer dormir na mesa do bar, e as minhas invenções podem até funcionar, mas não sem a ajuda de cafeína para me reanimar.

Além disso, eu me reinventei com dinheiro no bolso, apesar de ter acordado “pobre, pobre, pobre de marré de si” porque foi dia de pagar contas, fui ao meu cinema favorito e voltei para casa decidida a inventar que sou baiana, de saia rodada e mão na cintura, caso o moço do churrasquinho estivesse por lá, com calcinha preta, branca, amarela ou cor-de-rosa cantando ou gemendo, ameaçando meu sono, porque àquela altura eu já havia deixado de ser zumbi para me reinventar humana, e humanos precisam dormir. Mas, por sorte – dele e minha – ele não estava lá.

Reinventei também, pela milésima vez, que nem todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite e que domingo não é dia de sair, mas de ficar em casa, lendo Cortázar. E ainda agora fiz as duas invenções mais importantes da semana. A primeira: Saramago não morreu, só deixou de estar aqui para estar em outro lugar e tirou férias de escrever, só isso. A segunda: hoje tem jogo do Brasil e eu, meus tímpanos e meu humor estaremos imunes às malditas vuvuzelas-do-capeta, afinal, são só algumas mosquinhas varejeiras de nada…

E para representar dias surreais e reinventados como estes, ninguém melhor que Salvador Dali. E eu não consegui pensar em outra imagem para o post de hoje, senão a “Dali Atomicus”, tirada em 1948, uma das minhas favoritas, do fotógrafo russo Philippe Halsman, que costumava retratar o mestre do Surrealismo.

Essa foto é dona de um fascínio explicável: para conseguir esse registro foram 26 tentativas, durante cinco horas, com a ajuda de três assistentes para jogarem os gatos (pobres bichanos…), um outro jogando a água, e o outro a cadeira. Pois é, naquele tempo não existia Photoshop, mas já existiam mentes brilhantes e criativas. E para a minha feliz surpresa, elas ainda existem, e uma delas resolveu reinventar fotografias clássicas com a ajuda de peças de lego, e deu nisso:

E você, também anda se reinventando para sobreviver?

Roberta Simoni

Aquilo que se eterniza

Fotos

Antigas fotografias que nunca ficam antigas. Sorrisos de olhos fechadinhos de tanta alegria. Saudade do abraço apertado que a fotografia registrou, do cheiro e da sensação que a memória gravou. Saudade da calça tamanho 36 que agora só fica bem na foto antiga. Do cabelo curto de menina. Dos amigos que passaram e dos que ficaram. Da paixão que um verão trouxe e do amor que um inverno levou.

Saudade da infância de pés descalços, sem camisa, do cabelo “joãozinho”, das brincadeiras na rua, das primeiras descobertas, das sensações nunca esquecidas. Saudade até da parte da infância que não lembro ter vivido. Saudade da bisavó que eu desejei ter conhecido além do que vi numa fotografia em preto e branco.

Saudade das fotos que não tirei, dos momentos que não registrei através de imagens congeladas na geladeira do tempo, mas que o cérebro fez questão de arquivar… Dá uma saudade, sabe? Saudade dos lugares que ainda não conheci, dos amigos que ainda não fiz, do beijo que não foi roubado, da primavera que ainda não chegou.

Mais saudade ainda do que existiu e foi tão bom que se eternizou. Das fases, das descobertas, das “Robertas” que fui, da criança, da menina, da mulher. Daquela pessoa estranha, da pessoa que ainda reconheço, da minha versão que ficou esquecida. Das tantas caras que tive, das caretas que fiz, dos sorrisos que dei, dos estilos que tive, das bandas que fui fã, das músicas que ouvi, dos sonhos que realizei e dos que ficaram esquecidos no fundo de alguma gaveta.

Hoje eu perdi a conta da quantidade de horas que passei vendo e revendo fotografias, das mais novas até as mais “jurássicas”. Ri sozinha, gargalhei, chorei, me espantei, me encantei, me espelhei… ouvi sonoras gargalhadas na foto tirada numa roda de amigos. Senti a brisa do mar, escutei o barulho das ondas, senti meus pés tocando a areia molhada. Assisti o sol nascendo. Senti o sol me aquecendo antes de se pôr no horizonte da fotografia. Ouvi o estalo do beijo na bochecha, o barulhinho gostoso dos copos se chocando na hora do brinde. Os abraços que duraram só alguns segudos, mas que eu ainda posso sentir…

Roberta Simoni

A arte de criar

Se tem uma coisa que faz o meus olhos brilharem é a CRIATIVIDADE…

DedoHá alguns dias o site do Flickr (no qual hospedo as minhas fotografias)estava exibindo o álbum de fotos de um usuário que me chamou a atenção: com apenas uma imaginação bastante fértil e a ajuda de alguns dedos, ele criou uma sessão de fotos fantástica. Clique aqui para saber do que estou falando. Aposto que você também vai dar boas risadas ou, pelo menos, vai ficar admirado de ver o que a mente humana é capaz de nos fazer criar se dermos asas às nossas imaginações.

Roberta Simoni