Os Imortais

Imortais

Havia anos que eu não passava dias mais longos com meus pais. Minhas visitas aconteciam num intervalo de dois ou três meses, sempre nos fins de semana, que passavam voando entre a casa deles, da minha irmã e da minha avó, roteiro que eu seguia à risca todas as vezes que visitava a cidade. Normalmente não sobrava tempo para andar distraída por aí, para ver o mar que eu mergulho desde menina ou para ficar num bar até mais tarde jogando conversa fora com amigos de uma vida inteira.

No verão deste ano eu fui para passar mais dias e, sem aquela pressa costumeira das minhas visitas de médica, mais do que passar, eu passeei pela cidade como não fazia há muito tempo. Ou talvez como eu nunca tenha feito enquanto morava lá. Eu caminhava até a praia todos os dias, escolhia os cantos menos badalados e ficava por lá até a hora que me desse vontade, depois pegava o caminho mais longo e ia passando por vários bairros (que me remetiam a muitas situações memoráveis que vivi) até chegar na casa dos meus pais, que até hoje chamo de “lá em casa”.

Sou de Cabo Frio, uma pequena cidade litorânea no estado do Rio, onde a maior parte da minha família vive até hoje e onde vivi por 19 anos. Poderiam ter sido 30 se eu não tivesse teimado em ir embora na primeira oportunidade que tive, ou melhor, na primeira oportunidade que criei, verdade seja dita. Mais do que o desejo de fazer a faculdade de jornalismo, eu estava determinada a viver uma outra vida. Acabei vivendo várias. Algumas boas, outras nem tanto. Mas todas absolutamente diferentes daquela que eu tinha, que não era nada mau, era apenas previsível, o pesadelo de toda alma inquieta.

A questão é que não importa o quão longe você vá e o quão boas ou ruins sejam as lembranças do lugar de onde você veio, em algum momento você acaba se esbarrando com elas numa dessas esquinas da vida. E, considerando o tamanho da cidade onde nasci e cresci, eu devia saber que a probabilidade de eu dar de cara com as minhas em algum momento era bem grande.

Donde se presume que esses belos dias que passei em Cabo Frio não se resumiram só a experiências prazerosas. Numa tarde de segunda-feira, quando acompanhava minha mãe numa ida ao banco, dei de cara com dois fantasmas de carne e osso. O primeiro estava bem na esquina da agência bancária e atende pelo nome de “Professor Marcelo”, meu terror durante quatro longos anos da minha infância, meu professor de natação, com quem eu tinha encontros marcados todas as terças e quintas-feiras, pontualmente às sete da manhã, fizesse sol ou chuva.

Foi graças a ele que descobri que eu era barriguda. Característica física, inclusive, que possuo até hoje, só que em maior proporção. Como esquecer do jeito singelo como o professor Marcelo me fez notar minha barriga proeminente? “Vamo lá, Robertinha, vamo perder essa barriguinha!”. Eu enrolava toda vida para fazer os exercícios abdominais antes de começar o treino e ele não deixava barato: “Ô Roberta, que preguiça é essa? Assim você vai ficar barrigudinha pra sempre. Mais 20 abdominais para deixar de ser mole”. Ele falava isso alto o suficiente para eu sentir sua saliva espirrando na minha cara enquanto ele segurava meus pés até que eu terminasse o exercício. Eu queria morrer e matá-lo mas, no lugar disso, só sentia raiva mesmo, embora eu tenha plena consciência que se eu tivesse alguém como ele, me fazendo lembrar todos os dias que estou barriguda, muito provavelmente eu estaria mais satisfeita com a minha forma física hoje.

Minha irmã Elisa e eu com nossos professores de natação. Eu sou aquela ali, com os braços cruzados, tentando esconder a barriguinha, ao lado do professor Marcelo.

Minha irmã Elisa e eu com nossos professores de natação. Eu sou aquela ali, com os braços cruzados, tentando esconder a barriga, ao lado do professor Marcelo.

E Marcelo não só estava na esquina como também fez questão de me abraçar e me beijar. E quando eu perguntei se ele se lembrava de mim, ele garantiu que sim, com aquela risada inconfundível dele, que me fez ter a certeza de que não estava blefando.

Atravessando a rua, lá estava o segundo fantasma: tia Olinda. A dentista que colaborou muitíssimo para transformar o medo das minhas idas ao consultório odontológico em pânico absoluto por toda uma vida. Minha mãe e ela se cumprimentaram alegremente, tia Olinda olhou para mim e perguntou para minha mãe: “Essa é a sua caçula?”. Ela nem sequer se lembrava de mim, enquanto eu jamais esqueceria dela: a dentista que não tinha o menor jeito e paciência com criancinhas assustadas que fugiam de seu consultório e saiam correndo pelo corredor aos berros, fazendo uma pirraça fenomenal, como se estivessem sendo condenadas à morte na cadeira elétrica, quando tudo que ela tentava fazer era tratar de uma cárie. Obviamente, esse não era o tipo de coisa que uma menina comportada e boazinha como eu fosse capaz de fazer. Foi apenas uma história que ouvi por aí.

Esses dois encontros no espaço de três minutos e de um único quarteirão me fizeram pensar em como certas experiências determinam o rumo de uma vida inteira e de como as pessoas se eternizam na nossa memória de maneira inabalável.

Tanto ele quanto ela são muitas outras coisas além de professor e dentista, possuem qualidades e defeitos que eu desconheço e, muito provavelmente, são pessoas diferentes daquelas que conheci. Em mais de vinte anos eles devem ter se transformado um monte de vezes e se eu os conhecesse hoje, certamente os enxergaria de outro jeito, talvez até gostasse deles. Acontece que suas passagens pela minha vida os tornaram – nas minhas lembranças – figuras distorcidas de quem são na realidade.

Coincidentemente (ou não), eu li recentemente A Imortalidade, do Milan Kundera (livro que recomendo fortemente) e passei a compreender a imortalidade de um jeito completamente novo e que vem de encontro com esses dois personagens que esbarrei naquele dia: imortal não é aquele ou aquilo que vive para sempre, mas a maneira como cada pessoa ou experiência se eterniza na nossa memória.

Digamos que o Professor Marcelo e a Tia Olinda não tenham se eternizado da maneira mais legal de todas na minha memória mas, de certo, se imortalizaram. Convenhamos que não é todo mundo que passa pelo nosso caminho que se imortaliza, portanto, o mérito é inteiramente deles.

Trago comigo uma multidão de imortais magníficos também, que vão viver enquanto eu estiver viva, ou enquanto continuarem lendo as coisas que escrevi sobre eles.

E como uma reflexão sempre me leva à dezenas de outras, estou aqui a pensar de que maneira eu ando me imortalizando por aí. Não tenho a ilusão de ser lembrada com carinho por todo mundo cujas vidas eu participei de algum jeito em algum momento, nem sequer tenho a ilusão de nunca ser esquecida, tenho, inclusive, a consciência de que posso ser a “tia Olinda” de alguém, e mesmo assim tô achando um bocado bonito e divertido essa possibilidade de existir de várias formas.

A Imortalidade, Milan Kundera

Roberta Simoni

Tia Bernadete

Me colocou sentada no banquinho do piano e apertou o play do toca-fitas. Eu tinha o quê? Uns 10, 11 anos…? Por aí. Mas me sentia com 20, 21 quando estava com ela.

Falei orgulhosa para os garotos lá da rua: – não vou brincar com vocês hoje, tenho que estudar francês com tia Bernadete.

“Un, deux, trois, quatre, cinq…”

Passei anos da minha vida dizendo que sabia falar francês quando tudo que eu conseguia balbuciar eram os números 1, 2, 3, 4 e 5, que aprendi durante as noites que deixava de jogar bola e brincar de queimado na rua para ficar na casa de cima com tia Bernadete, escutando a voz da professora na fita cassete mandando ela repetir frases em francês. Lembro bem mais de tia Bernadete rindo do que conseguindo pronunciar qualquer palavra. Toda vez que tentava falar, fazendo um biquinho nada sexy e se sentindo ridícula quando abria a boca, nós duas caíamos na gargalhada.

Talvez ela preferisse a minha companhia porque sabia que uma criança não questionaria a utilidade de aprender a falar francês quando se tem trinta e tantos anos e tanta coisa mais importante para fazer, talvez porque se sentia como uma criança aprendendo a falar ou talvez fosse só porque ela era mesmo imatura. Fato é que me fazia sentir importante toda vez que descia lá em casa para me chamar para ajudá-la com as lições do cursinho.

Nesse período, morávamos no mesmo quintal, minha tia vivia com os pais, meus tios avós. Tia Bernadete era, na verdade, minha prima de segundo grau, mãe das minhas primas de terceiro grau, Raphaela e Cristina. Alguns anos antes, perdemos Cristina, que caiu do telhado tentando resgatar um gato (ou, pelo menos foi o que me contaram e sustentam até hoje: o gato subiu no telhado e…), tínhamos mais ou menos a mesma idade, Cristina e eu, e – dizem – um gênio bem parecido, éramos os moleques de saia da família mas, para o alívio de todos, brincamos poucas vezes juntas e não chegamos a causar grandes danos à humanidade. Morávamos em cidades diferentes e tínhamos pouco contato.

Cristina teve suas córneas transplantadas para outra criança. Hoje existe alguém enxergando esse mundão com os olhos dela e eu torço para que essa pessoa se sinta feliz por isso todos os dias quando acorda. Uma vez tia Bernadete me disse que sonhou que ela e Cristina estavam usando vestidos brancos, sentadas num jardim bonito, comendo o bolo de chocolate que vovó Verinha fazia (e faz divinamente até hoje). Pouco tempo depois, tia Bernadete morreu. Desde então, toda vez que penso nas duas, é desse jeito, contentes, com mãos, bocas e vestidos lambuzados de chocolate. Não poderia ter confeccionado uma imagem mais genuína e divertida delas.

A sala onde tia Bernadete e eu “estudávamos” era um dos meus lugares favoritos no mundo todo, no meu mundo todo de menina que conhecia quase nada além do bairro da Vila Nova. Era uma sala cheia de quadros, com uma mesa de jantar grande, uma cristaleira, um piano que, de vez em quando, tia Wilma me deixava tocar e a família toda aplaudia, me fazendo acreditar que eu estava, de fato, emitindo qualquer som parecido com música.

Aconteceram muitas festas naquela sala, hoje só há poeira e silêncio. E a saudade da menina que sentava no banco giratório do piano, colocava as pernas pro alto e pedia para tia Bernadete fazê-la girar, girar, girar…

Sonhava com ela no princípio, depois os sonhos pararam de acontecer. Da última vez que estivemos juntas – há mais de 16 anos – tia Bernadete já estava muito debilitada e, enquanto os adultos discutiam as medidas que tomariam com o avanço da doença, nós duas assistíamos televisão na cama dela quando, durante uma apresentação da Claudia Ohana num desses programas de auditório, eu gritei: “olha tia, ela tem um monte de cabelo no suvaco!”. Tiveram que me retirar do quarto porque tia Bernadete começou a ter uma crise de riso. E foi essa gargalhada que ela me deixou como última recordação.

Uma vez eu li em algum lugar que uma pessoa só morre de verdade quando ninguém mais lembra dela. Se isso for verdade, eu a forço a viver e não sei até onde isso está certo.

Mas essa não é a história de uma mulher que morreu, é a história da mulher que viveu. Morrer não difere ninguém.

Vovó conta que tia Bernadete era ousada, destemida, inconsequente, intensa, fez muitas escolhas erradas e, até onde eu sei, nunca foi bom exemplo (e não é depois de morta que vai virar). Vai ver foi isso que aproximou a gente…

É claro que ela nunca aprendeu a falar francês. Nem eu. Mas quem se importa? Morrer se divertindo é melhor do que morrer bilingue.

Roberta Simoni

Qual a face da paixão?

Face de Mulher

Que dias felizes eram aqueles. Naquelas tardes preguiçosas de fim de inverno, com a primavera começando a florescer nos corações, havia um clima diferente no ar, uma magia que Tobias não sabia explicar, só sabia sentir. Na verdade, nem sentir ele sabia, porque era maior do que ele. Não cabia na alma, fugia do controle e do espaço limitado do coração. Era sentimento novo e, por isso mesmo, era muito gostoso.

Ele fechava os olhos e se esforçava para lembrar do rosto dela. Ia buscar lá no fundo da memória, mas não encontrava nada. Só lembrava de detalhes: da cor da pele clara e dos cabelos escuros e encaracolados, das bochechas rosadas, do nariz arrebitado, da boca pequena, dos olhos castanhos e grandes. Até do cheiro ele lembrava, e, quando pensava nele enchia o pulmão de ar, respirando tão fundo que era capaz de sentí-lo, mesmo só tendo sentido o cheiro dela de fato uma única vez, quando a viu também pela primeira vez.

Ele tentava juntar cada detalhe que lembrava para construir o rosto dela, em vão. Mas, às vezes, no meio do dia, inesperadamente, durante uma atividade rotineira, o rosto dela surgia no meio de um pensamento, mas antes que ele tentasse registrar a imagem, em milésimos de segundos, ela desaparecia. Era um espasmo de felicidade que se prolongava pelo resto do dia, e o efeito que isso causava em Tobias era visível: olhos caídos, cara de bobo e sorriso no canto da boca, sem o menor motivo aparente.

Um dia eu falei pra ele: “Tobi, você está apaixonado, sei que está!”. Ele nem hesitou ou tentou negar, se aproximou e confessou falando baixinho comigo, justificando-se ao mesmo tempo: “Ahhh, mas ela é tão… tão… linda! Bom, eu acho, porque não consigo me lembrar do rosto dela, mas acho que é, senão eu não teria me apaixonado, não é mesmo?”.

Eu conhecia bem aquela sensação, apesar de me lembrar vagamente de como é sentir “paixão sem cara”: a melhor que existe, definitivamente! Lembro-me de ficar irritada e inconformada, por gostar tanto de uma pessoa e, mesmo assim, esquecer o seu rosto. Hoje eu acho tudo isso tão divertido! Simplesmente fechar os olhos e pensar em alguém – com ou sem um rosto propriamente dito -, tentar adivinhar as informações que o cérebro não registrou, ou registou, mas guardou para o final, como a gente guarda o último pedaço do doce preferido.

Mas hoje Tobias está sóbrio. Casou-se com Clara, aquela de quem o rosto ele não se lembrava. Final feliz? Tenho lá minhas dúvidas. Agora ele nem precisa mais fechar os olhos para lembrar-se dela, inclusive, acho pouco provável que gaste alguns minutos do seu dia para suspirar por Clara. Não, não é que ele não a ame, ele ama, só não está mais embriagado.

É só um homem entre tantos. Não há mais sintomas de paixão, nem sequer sinais. O Diagnóstico? Bom, ele – infelizmente – está curado.

Roberta Simoni

A florzinha de cabelo

Frôzinha

Ontem eu passei numa loja, vi aquelas florezinhas que você gosta de usar nos cabelos e lembrei tanto de você, aí deu uma saudade sua… – ela me disse, docemente.

Achei tão meigo e carregado de sinceridade, mesmo sendo aparentemente tão simples, afinal, era só um enfeite de cabelo que remeteu uma lembrança a minha pessoa.

Tenho essa mania de achar significado e sentido para tudo. É que eu acho mesmo tudo tão simbólico, e, por mais que pareça bobo, me emociona. Considerando que eu sou um pouco (bastante???) boba, isso faz até algum sentido, não é?!?

Apesar de não ser intencional, eu gosto de saber que deixei algum registro, alguma marquinha na vida das pessoas, por mais insignificante que possa parecer, como a florzinha de cabelo: entre tantas coisas que minha amiga podia ter pensado ao ver o enfeite, tantas pessoas que podia se lembrar… pensou em mim. Durante um dia de horas corridas e concorridas, eu me enfiei lá, intrusa, no meio dos pensamentos dela.

Mas foi só um enfeite de cabelo, Beta !!!

Ora… foi um enfeite, como poderia ter sido uma música, uma frase, um filme, um livro, um cachorrinho de rua, um cheiro, uma cor, um sabor, como foram tantas vezes com tantas outras pessoas, que me emocionaram na mesma proporção. Não é necessariamente o “objeto” da lembrança, mas a recordação em si.

É por isso que as nossas referências são um caso sério. Se elas fazem alusão a nós, é melhor que sejam boas. Já imaginou ser referente à um cheiro desagradável, um episódio ruim, uma música brega ou uma roupa de mau gosto? Para quem lembra de você, deve ser – no máximo – engraçado. Pra você, talvez, nem tanto.

O mais interessante é que nós registramos as características de várias pessoas, cada qual de uma maneira diferente, na nossa memória. E elas fazem o mesmo conosco.

O mesmo amigo que me falou animado, que ouviu uma música liiiiinda e instantaneamente se lembrou de mim, ao me encontrar usando um desses meus “frufus” no cabelo, dias atrás, confessou que me acha tão fora de moda e com aparência envelhecida quanto estou com esses “troços” no cabelo. Eu achei tanta graça, e na mesma hora pensei: que bom que a memória dele não busca a minha imagem ao ver as “frôzinhas” por aí. Neste caso, acho que a música deve me representar melhor mesmo. 😀

Especial mesmo é ser lembrado. Não me importo que seja pelo jardim ambulante que carrego na cabeça, pela minha risada escandalosa, pelas palavras que eu destilo, pelas gafes que eu cometo, pelo perfume que deixo ao passar, ou pela melodia que gosto de escutar incansavelmente… desde que, qualquer que seja a lembrança que se remeta a mim, cause um único efeito: aquele sorriso gostoso e manso que surge inesperadamente no canto da boca!

Roberta Simoni

Aquilo que se eterniza

Fotos

Antigas fotografias que nunca ficam antigas. Sorrisos de olhos fechadinhos de tanta alegria. Saudade do abraço apertado que a fotografia registrou, do cheiro e da sensação que a memória gravou. Saudade da calça tamanho 36 que agora só fica bem na foto antiga. Do cabelo curto de menina. Dos amigos que passaram e dos que ficaram. Da paixão que um verão trouxe e do amor que um inverno levou.

Saudade da infância de pés descalços, sem camisa, do cabelo “joãozinho”, das brincadeiras na rua, das primeiras descobertas, das sensações nunca esquecidas. Saudade até da parte da infância que não lembro ter vivido. Saudade da bisavó que eu desejei ter conhecido além do que vi numa fotografia em preto e branco.

Saudade das fotos que não tirei, dos momentos que não registrei através de imagens congeladas na geladeira do tempo, mas que o cérebro fez questão de arquivar… Dá uma saudade, sabe? Saudade dos lugares que ainda não conheci, dos amigos que ainda não fiz, do beijo que não foi roubado, da primavera que ainda não chegou.

Mais saudade ainda do que existiu e foi tão bom que se eternizou. Das fases, das descobertas, das “Robertas” que fui, da criança, da menina, da mulher. Daquela pessoa estranha, da pessoa que ainda reconheço, da minha versão que ficou esquecida. Das tantas caras que tive, das caretas que fiz, dos sorrisos que dei, dos estilos que tive, das bandas que fui fã, das músicas que ouvi, dos sonhos que realizei e dos que ficaram esquecidos no fundo de alguma gaveta.

Hoje eu perdi a conta da quantidade de horas que passei vendo e revendo fotografias, das mais novas até as mais “jurássicas”. Ri sozinha, gargalhei, chorei, me espantei, me encantei, me espelhei… ouvi sonoras gargalhadas na foto tirada numa roda de amigos. Senti a brisa do mar, escutei o barulho das ondas, senti meus pés tocando a areia molhada. Assisti o sol nascendo. Senti o sol me aquecendo antes de se pôr no horizonte da fotografia. Ouvi o estalo do beijo na bochecha, o barulhinho gostoso dos copos se chocando na hora do brinde. Os abraços que duraram só alguns segudos, mas que eu ainda posso sentir…

Roberta Simoni