O que fazer com os tijolos?

Loucura

Lúcia veio correndo me abraçar e me pediu para tirarmos uma foto juntas. Depois da foto, perguntei a idade dela. 18, disse. Uma das enfermeiras se aproximou e desmentiu, contou que ela tinha acabado de completar 41 .

– Ora ora, mocinha, mentiu pra mim por que, hein?

– Eu não menti. Se eu gosto de ter 18, eu tenho 18.

Justo!

– Onde estão os maracujás? Onde estão os maracujás? Os loucos precisam é de maracujás!

Quem dizia isso, aos berros, era um senhor parecidíssimo com Albert Einstein. Perguntei do que se tratavam os maracujás e ele me explicou que tinha levado muitos maracujás para fazerem suco para os malucos mas que, ao invés disso, estavam oferecendo refrigerante.

– Como podem querer que a gente fique curado tomando guaraná?

Eu, com o copo de guaraná na mão, fui obrigada a concordar.

Enquanto o Einstein dos maracujás me mostrava seu livro de poesias (impresso e vendido por ele mesmo), um moço parecido com o Jorge Ben Jor se aproximou de nós e perguntou meu nome.

– Roberta? Já compus uma música chamada Roberta, para uma moça chamada Roberta, sabia Roberta?

Nesse instante, passou por nós um rapaz vestindo uma camisa de forças e o Ben Jor disse:

– Eu já usei aquilo ali um monte de vezes. É horrível. Coça muito e a gente fica com as mãos presas se roçando no muro para aliviar. Pior do que a coceira, só o choque elétrico. Tá vendo aquele cara ali? Ele já foi um grande matemático, tomou choque um monte de vezes e você pode ver, óh… ele não ficou sequelado nem nada. Eu também não, tá vendo?

Eu ali, entre a Lúcia de 18 anos, o Einsten dos maracujás e o Ben Jor não-sequelado tentando entender o universo deles, fazendo perguntas que eles disputavam para responder primeiro e conseguir mais tempo da minha atenção. Tão fascinante quanto assustador foi perceber que todos eles possuem, em sua essência, alguma genialidade. Escritores, compositores, artistas, matemáticos…

E eu – que estou longe de ser um gênio – o que eu fazia num sanatório? Poderia estar, tranquilamente, buscando tratamento mas, naquela ocasião, estava cobrindo as ações sociais que uma empresa promovia no hospital. O cliente não era meu, mas de outro fotógrafo que meia volta me passava alguns trabalhos pela impossibilidade de ser onipresente e, por felicidade do destino, acabou precisando de mim naquele local, naquele dia.

Acabei voltando lá outras vezes por conta própria no ano passado para visitar Lúcia e cia e, recentemente, por outras razões, finalmente conheci o Instituto Philippe Pinel. Nessa ocasião, tive a chance de passar algum tempo com um ex-militar chamado Alberto, com quem tive uma conversa esclarecedora acerca da realidade dos portadores de distúrbios mentais. Alberto, que sofre de esquizofrenia e transtorno bipolar, me contou como começou a desenvolver as doenças, como acabou perdendo tudo (carreira, dinheiro, família) e como vive hoje, medicado e afastado da sociedade por “segurança”, que também entende-se como ignorância.

Provavelmente você não sabe disso (eu também não sabia), mas hoje, 18 de maio, é o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, o que, em outras palavras, significa que temos um dia oficial para reivindicar o respeito e reconhecimento dos direitos dos portadores de transtornos mentais, como também, a humanização do tratamento psiquiátrico no nosso país.

O que me assusta é ver como esse assunto é abafado numa sociedade onde todos nós conhecemos, convivemos (ou somos) uma dessas pessoas que sofre algum tipo de distúrbio mental. “Fulano é maluco” e pronto, o rótulo está formado, definido e o assunto está encerrado.

Ser portador de uma doença mental como a esquizofrenia, por exemplo, é tão ou mais grave do que ter um câncer, mas ninguém fala, ninguém vê, ninguém ouve, porque fomos acostumados a criar muros que nos separam, delimitam e nos isolam de pessoas com doenças mentais (a primeira vista em nome do tratamento, mas também e principalmente em nome daquilo que tememos, do que não compreendemos, não aceitamos e não sabemos como lidar).

Mas aí, se você se propõe a conhecer de perto a realidade de pessoas com qualquer tipo de deficiência mental, acaba descobrindo que, ao se arriscar entender melhor suas formas de pensar, sentir e enxergar o mundo, você não vai ficar mais louco, talvez mais sóbrio, o que pode ser, de fato, comprometedor.

Eles nos dão tijolos e nós decidimos o que fazer com eles. E só há duas possibilidades:

Ou continuamos levantando muros ou começamos a construir pontes.

Lúcia, aos 18.

Lúcia, aos 18.

(entenda mais sobre o Dia Nacional da Luta Antimanicomial lendo esse artigo aqui)

Roberta Simoni

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10 comentários sobre “O que fazer com os tijolos?

  1. Lindo texto Beta !
    Minha mãe é portadora de demência fronto-temporal e tive a oportunidade de conhecer alguns locais que tratam de diversos transtornos mentais. Pude conviver por mais de 2 meses no Instituto de Psiquiatria do HC com pacientes esquizofrênicos, depressivos, bipolares, com mal de Alzheimer… enfim, uma experiência indescritível. E posso reafirmar tudo o que você disse, pois a impressão que tenho é que os transtornos mentais não são tratados como as demais doenças. Infelizmente a ignorância leva as pessoas à imaginar que tudo relacionado à doença mental tem a ver com “espírito”, “doença da alma”. Como se o cérebro também não pudesse adoecer.
    Triste… mas é a realidade. Como muitas outras realidades nas quais fechamos os olhos, como se não existissem.

    Um beijo,
    Fabi

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  2. EXTRAORDINÁRIO BETA !!

    Sentimento e humor são teus instrumentos de escrita. A gente reflete e se emociona. Parabéns linda.

    Sempre pensei que, por Lei, todas as pessoas teriam a obrigação, depois dos 12 anos de idade , a cada período de 3 a 5 anos, fazer uma visita obrigatória em três lugares: Hospital – na Ala de doentes Terminais, num presídio e num cemitério, não necessariamente nesta ordem claro; Mas acabo de acrescentar mais 2 lugares; um ASILO e o Hospicio. Cujo nome já é discrimador. Seríamos pessoas melhores com certeza. Parabéns e obrigada por compartilhar conosco.

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  3. Louco? Eu?
    Sou sim, mas quem não é?
    Olhando pela janela do mundo tá meio difícil dizer quem é são.
    Os sãos quem são?Ou são os sãos que são o que são?
    Pareço louco mas sou são…ou não?
    A loucura depende do ponto de vista, ou da vista do ponto, onde passo parte da vida esperando o ônibus para passar a outra parte trabalhando para viver bem.Será que isso é viver bem?Quem é o louco afinal?
    Por falar em afinal, vocês viram o Corintians?Que loucura!!!

    Assinado:Raul Seixas

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  4. Maravilhoso texto, lindona!!!
    Todos nós temos um pouco(muito) de louco, apenas não reconhecemos ou disfarçamos bem.
    Mas a realidade da loucura é muito triste e ninguém está livre dela. Não é ignorando-a que ela vai deixar de existir.
    A linha tênue entre tristeza e alegria, amor e ódio, podem desencadear algumas “loucuras”, que estavam mascaradas, mas precisam ser cuidadas e refletidas para o nosso próprio entendimento.
    É um assunto delicado e “proibido”, mas precisa ser trabalhado e esclarecido, compreendido mesmo.
    Você com sua sensibilidade a flor da pele, tocou num assunto muito sério e reflexivo…parabéns!!!

    Beijos com amor…

    Mamy

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  5. “…Alberto, que sofre de esquizofrenia e transtorno bipolar, me contou como começou a desenvolver as doenças, como acabou perdendo tudo (carreira, dinheiro, família) e como vive hoje, medicado e afastado da sociedade por “segurança”, que também entende-se por ignorância…”

    Fiquei muito curioso em saber como isso aconteceu com ele. Poderia até pesquisar sobre, mas seu ponto de vista é muito bacana, claro e objetivo além de extremamente prazeroso de ler. Podia fazer um post sobre isso rs

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  6. Linda, Beta!
    *.*
    É importantíssimo termos consciência de que essas pessoas são seres humanos que sentem o mesmo que sentimos, ou ja sentiram; tentarmos lembrar que eles já viveram situações muito parecidas com as que vivemos agora; e, por fim, questionarmos: “o que é loucura?” – será, de verdade, que esses manuais de psiquiatria e esses remédios realmente Tratam e Recuperam os que estão passando por um desequilíbrio mental?.

    Beijos!
    Adorei que você tenha compartilhado uma experiência tão rica!

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