O Beijo de Melancia

– Quer?

– Oi? Ah… não, obrigada!

– Tem certeza? É de melancia.

– Hummm, ahhh… tá bom, eu aceito. Adoro trident de melancia! É o meu preferido.

– O meu também! Viu? Já temos uma coisa em comum!

– Sei… e você é o…?

– Gustavo. E você?

– Regina.

– E então, Regina, você vem sempre aqui?

– Sempre. E você sempre anda com chicletes no bolso para se aproximar das mulheres?

– Na verdade, não. Só me sinto seguro de fazer isso quando o sabor do chiclete é de melancia. Sempre funciona.

– Infalível mesmo é quando eu digo que “seja-lá-qual-for” o sabor do chiclete que me oferecem é o meu preferido. Para falar a verdade, eu nem gosto de melancia.

– Bom, então posso ousar achar que você queria que eu me aproximasse?

– Ouse.

E foi assim, com gosto de melancia, o nosso primeiro beijo. Afinal, o que mais me restaria fazer a não ser beijar aquela mulher ali, diante de mim, me olhando dentro dos olhos e me dizendo “ouse”. Ousei.

Mas agora, pensando friamente, não sei se fui ousado ou covarde. A verdade – uma das quais nós, homens, nunca assumimos – é que mulheres que nos olham dentro dos olhos assim, num primeiro contato, parecem ser tão seguras que nos intimidam. A gente vive dizendo que não suporta mais se relacionar com mulher insegura, que gostaria que as nossas mulheres fossem mais independentes, que não aguenta mais os joguinhos e as frescuras do universo feminino, que gostaria de ter uma mulher decidida ao lado, e aí, quando ela aparece a gente simplesmente não sabe como agir. Virei garoto, garoto bobo, que não consegue controlar as próprias pernas bambas.

E antes que ela olhasse para baixo e visse os meus pés sambando, eu a beijei. Beijei porque não resisti àquela boca me induzindo a ousar, e porque eu não sabia o que fazer, e também porque tive medo de ser engolido por aqueles grandes olhos negros e não saber nadar tão fundo e tão escuro. Eu sempre tive medo de mergulhar no mar à noite. E ela era mar, e era noite.

Ledo engano acreditar que beijando-a eu estaria nadando no raso. Mergulhei nela. E mergulhamos fundo um no outro, num beijo que durou quase meia hora. A meia hora de silêncio mais barulhenta que eu já experimentei, de suspiros profundos, de palpitações fortes e batimentos cardíacos acelerados, findada com as nossas respirações ofegantes. É… parecia sexo, mas foi melhor: era beijo apaixonado.

E como quem não tivesse me dito – meia hora antes – que não gostava de melancia, ela tirou da bolsa um envelope de trident – adivinhem!!! – de melancia.

E, apesar de termos trocado olhares por dias seguidos antes que eu tomasse coragem de me aproximar dela com o meu chiclete tolo, eu juro, reparei tanto em cada detalhe dela, que não sobrou tempo nem espaço para observar se ela mascava chiclete ou não, quanto mais se era de melancia, menta, hortelã ou tuti-fruti. Mas aí, meus amigos, já era! Não importava o que eu dissesse, ela é mulher, e vai morrer achando que eu planejei tudo. Logo eu, que morria de medo de mergulhos noturnos…

– Mas, espera aí… você não gosta de melancia, esqueceu?

– Esqueci… quer?

– O que? Você ou o chiclete?

– Os dois. Juntos.

E aí vieram outros beijos, vários. Todos sem chicletes como pretextos, alguns com chicletes e sem pretextos, outros sem chicletes e sem pretextos.

… E eu ainda consigo sentir o sabor de melancia do primeiro beijo.

Roberta Simoni

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15 comentários sobre “O Beijo de Melancia

  1. Sabe, Beta (se é q posso me dar essa intimidade depois do conselhos que me deu outro dia), nesse exato momento estou recebendo aulas de paquera com um dos meus melhores amigos. Estou ultra mega blaster a fim de um colega das aulas de boxe chinês e buscando uma forma dessa magia gostosa acontecer…
    E é essa imagem de segurança que eu passo, apesar dos tombos que a vida me proporcionou… Qdo que na verdade o que eu mais quero é colo, confiança, carinho e ser protegida…
    Como a gente sonha, né?
    Recebi um título: “mais macho que muito homem” dos meus amigos… Pior é ter q concordar que nessa acabo chupando no dedo.

    “Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás.”

    Beijão!!!

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    • Claro que pode me chamar de Beta. Eu te chamo de Jujú sem sequer ter te pedido permissão. Se não podia, meu bem, já era! =P

      Então quer dizer que tem gente aí reaprendendo a paquerar? Que aulas agradáveis deve estar tendo, heim?!?
      Mas então, Jú, seguinte: a verdade é que tudo que mulheres seguras como você e como a moça aí do conto querem, na verdade, é colo e carinho. Mas os homens não sabem disso! “Xiiiiiiiiiiuuuu”, vamos falar baixo! Isso é segredo, não queremos que eles nos ouçam.

      É melhor que eles sintam uma pitadinha de medo. O medo desafia, e o desafio sempre tem um gostinho pra lá de gostoso, tipo chiclete de melancia, sabe?

      E acredite: você não fica chupando dedo, eles é que ficam.

      😉

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  2. “…acordar nunca é ruim pra mim, nunca, nunca. Porque eu acordo ao lado daquela mulher ali, e é tão maravilhoso que, se vcs ainda não experimentaram, precisam experimentar um amor assim… Depois que eu acordo e saio de casa é que fica difícil encarar o mundo.”

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  3. Olá Beta…
    Estou fascinada pelos seus textos, sempre dou um passadinha pra ver se tem algo novo…

    Esse em especial me passou uma imensa vontade desse beijo sabor melância.

    As vezes tenho a impressão de que essa independência e autonomia adquirida passa a impressão de não querermos homens chicletinhos, recados carinhosos?! “ahh é só falar um eu te amo”, beijo demorado?! “pra quê, mulher tem mais o que fazer”… Quando na verdade (não estou na TPM) estamos totalmente carentes.

    Ótimo fds!!!
    Bjim

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  4. Sobre contos encantados que traduzem a essência do relacionamento humano … Lembra quando vc me perguntou minha opinião sobre no que seus textos deveriam focar ? Sem dúvida respondo: “É disso que eu estou falando!!!”, o caminho que você percorreu nesse texto possui a abrangência do seu propósito. Vc arrasou ! Bjs !

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  5. Boa noite gatinha…rs

    Olha só quantos comentários…

    Quando eu digo que você arrasa nos contos, você não entende.

    Muito bom.

    O da Thelma tb, apesar de eu preferir esse.

    Bjo

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  6. Tenho medo de você!!!!!!
    Como será que vai estar escrevendo daqui há algum tempo??? Atualmente já dá um show, e às vezes acho que nem tem consciência disso… Aff…

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    • Gaby:

      Você tem medo de mim? Hahahahaha, essa é ótima, amiga. Faz-me rir muito!
      Obrigada, por me admirar tão genuinamente.

      Em tempo: se eu não tenho noção do quanto estou escrevendo, não tem problema, você tá aqui pra isso, me fazer lembrar e acreditar. 😉

      Beijos sem fim.

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